0# CAPA 8.7.15

VEJA
www.veja.com.br
Editora ABRIL
edio 2433 - ano 48  n 27
8 de julho de 2015

[descrio da imagem: repetio da capa da semana anterior, da imagem, de perfil, em sombra, do rosto de Ricardo Pessoa. Nesta, o fundo est em uma s cor, e por cima do rosto, alguns recortes de documentos mostrando contribuies]
EXCLUSIVO
AGORA, AS PROVAS DO DELATOR
Os documentos que o empreiteiro Ricardo Pessoa entregou ao Ministrio Pblico para sustentar suas afirmaes sobre dinheiro de propina em campanhas eleitorais.

[outros ttulos]

ESPECIAL-12 PGINAS
O ATLAS DOS SONHOS
O que  imutvel e o que  influenciado pela cultura e pela realidade de cada regio do mundo.

TROPA DE ELITE
A blindagem tica do Bope est sob intenso ataque.
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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 8.7.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  UM ERRO CONTINUADO
     1#3 ENTREVISTA  NEIL DEGRASSE TYSON  A BUSCA PELA ORIGEM DE TUDO
     1#4 LYA LUFT  A VIDA SURREAL
     1#5 LEITOR

1#1 VEJA.COM

A NDIA DOS ESTUPROS
A ndia  um dos pases que crescem mais rpido no mundo, e a modernizao na economia vem acompanhada de mudanas profundas na sociedade. Nem todas so positivas. Uma das mais espantosas  a escalada vertiginosa do nmero de estupros. Segundo as estatsticas, uma mulher  violentada a cada 25 minutos no pas. Em Nova Dlhi, em pouco mais de uma dcada, houve uma variao da ordem de 329% na quantidade de casos, o que rendeu  cidade a alcunha de capital mundial do estupro. Reportagem no site de VEJA mostra que o mais chocante, no entanto, no so os nmeros, mas a maneira como a sociedade, incluindo a elite poltica, encara o problema: mais como uma contingncia do que como um crime a ser combatido a todo custo. 

BRASILEIROS DA NBA
Profissionais brasileiros comeam a abrir portas fora das quadras na liga americana de basquete - a NBA. Reportagem no site de VEJA mostra como Felipe Eichenberger, assistente de preparao fsica do Denver Nuggets, e Alessandra Oliveira, fisioterapeuta do Brooklyn Nets, conquistaram espao nesse competitivo mercado americano. 

SER ADULTO  TIMO
O jeito despojado, os vdeos divertidos no YouTube e a escrita que se alinha to bem s angstias da adolescncia levam a crer que o escritor John Green vive uma espcie de sndrome de Peter Pan. No  o caso. Em entrevista ao site de VEJA, ele diz que, apesar de algumas dificuldades na fase de transio, hoje  um adulto feliz. "Enfrentei uma depresso forte. Mas descobri que ser adulto  timo. S leva um tempo para a gente se acostumar", conta o autor de A Culpa  das Estrelas e de Cidades de Papel. 

EDIO ESPECIAL OLIMPADA
A segunda edio especial de VEJA rumo  Rio 2016 tem um tema nico: o jud. A escolha foi fcil, porque o esporte  campeo em medalhas olmpicas para o Brasil, dezenove no total. Reportagens contam a origem da arte criada por Jigoro Kano na virada do sculo XIX, as histrias dos nossos grandes judocas e as promessas para os Jogos do ano que vem.


1#2 CARTA AO LEITOR  UM ERRO CONTINUADO
     O pecado original da era petista foi presumir que a conquista da Presidncia da Repblica pelo voto fazia do Brasil propriedade privada do partido. Desde o comeo do primeiro mandato de Lula, em 2003, o PT acostumou-se a tratar a coisa pblica como se fosse sua. Essa apropriao indbita no se deu apenas no campo material, como ficou amplamente comprovado nos escndalos do mensalo e do petrolo, entre tantas outras investidas dos militantes sobre o Errio. Ela se manifestou fortemente tambm na tentativa de pr as instituies a servio dos interesses partidrios. 
     Uma premonitria capa de VEJA de 29 de junho de 2005 estampou o selo da Repblica toscamente coberto com um adesivo da estrela vermelha do PT e a chamada: "O grande erro  confundir o partido com o governo". O patrimonialismo do PT em relao ao Estado emergiu de maneira incontestvel em muitos momentos nos ltimos doze anos. Lula doou refinarias da Petrobras ao governo da Bolvia como se lhe pertencessem. Dilma Rousseff perdoou dvidas milionrias contradas com o Brasil por ditadores africanos, usando dinheiro do contribuinte para azeitar a poltica externa ideolgica de seu partido. 
     Nos dois governos, o BNDES emprestou centenas de milhes de dlares para a construo de um porto em Cuba, hidreltrica no Equador, metr na Venezuela e gasoduto na Argentina, como se a infraestrutura brasileira no estivesse absolutamente carente dessas obras. 
     Na semana passada, eclodiu mais um episdio com razes na confuso proposital que o PT faz do partido com o Estado. Sem sequer se dar ao trabalho de disfarar, o PT pressionou Jos Eduardo Cardozo, ministro da Justia, para que agisse de modo a evitar a priso de petistas suspeitos de crimes na Operao Lava-Jato. No governo Lula, ficou tristemente famosa a atuao do ministro da Justia Mrcio Thomaz Bastos, morto no ano passado, como "advogado de defesa" do partido. A no ser em republiquetas e regimes autoritrios, o ministro da Justia esmera-se no cumprimento das leis e no em sua suspenso quando seu peso recai sobre correligionrios. A presso sobre Cardozo pode redundar em sua renncia. Com atitudes assim, no  surpresa que, em pesquisas de opinio, Dilma tenha apenas 9% de aprovao e seu partido 11% de preferncia  prova de que o Brasil no  uma republiqueta e se recusa a ser governado com autoritarismo. 


1#3 ENTREVISTA  NEIL DEGRASSE TYSON  A BUSCA PELA ORIGEM DE TUDO
O astrofsico americano, o mais ativo divulgador da cincia depois de CarL Sagan, diz que aceitar afirmaes sem exigir provas  burrice e alerta contra as "polcias do pensamento".
FILIPE VILICIC

O astrofsico nova-iorquino Neil deGrasse Tyson  um dos rostos mais conhecidos da cincia por saber traduzir, com graa e elegncia, o intrincado linguajar de estudiosos. Em suas palavras, "mostra as reais maravilhas do conhecimento". Ele faz isso por meio de livros bestsellers, a exemplo do mais famoso deles, Origens, lanado em 2004 nos Estados Unidos, mas que s na semana passada chegou ao Brasil. Dr. Tyson  como  chamado  se assume como herdeiro de Carl Sagan, astrofsico que popularizou a explorao espacial com o programa televisivo Cosmos, dos anos 80. No por acaso,  dele a reedio da srie, que apresenta na Fox. Tyson  defensor ferrenho do mtodo cientfico como a melhor forma de explicar a origem de tudo o que existe. 

Seu livro busca compreender a origem de tudo, seja a vida, seja o universo. Por que esse tema  to recorrente na cincia? 
Se queremos analisar uma laranja, por exemplo, podemos verificar que ela  redonda, tem gosto ctrico. Se na experincia de laboratrio destrumos a fruta, basta buscar outro exemplar e o trabalho prossegue. Essa lgica, de estudar a existncia, vale para tudo, de organismos a estrelas. Mas e se decidirmos compreender a origem da laranja? A a situao se complica. Primeiro,  simples notar que ela vem de uma rvore. E de onde veio a rvore? De uma semente. E a semente? Mais complicao. Quando se pergunta sobre a origem de qualquer coisa, os questionamentos no param. Em dado momento,  inevitvel chegarmos a essa indagao filosfica clssica: "Qual  a origem da vida?". Para responder a essa questo,  preciso elaborar argumentos cuidadosos, factveis, mas extraordinariamente imaginativos. Por isso, tantas das mentes brilhantes da humanidade se dedicaram ao desafio. 

Diante da dificuldade de chegarmos  origem de tudo o que est a, uma busca infindvel, aparentemente eterna, no seria o caso de aceitar com mais naturalidade e compreenso as interpretaes religiosas? 
A religio de cada um tira concluses precipitadas sobre o funcionamento do universo. A cincia, no entanto, realiza medies capazes de mostrar que essas impresses so falsas. At hoje as pessoas dizem "God bless you" (Deus te abenoe, em ingls) quando algum espirra. Por qu? No passado, acreditava-se, para valer, que, quando isso ocorria, a alma saa do corpo e deixava a pessoa vulnervel a demnios. Um religioso pode ver o mundo dessa maneira. A cincia verifica que h bactrias que causaram o espirro, e ponto. Um religioso pode aceitar as descobertas e passar a usar passagens de suas escrituras, a exemplo da Bblia, como metfora, fonte de inspirao. Ou entrar em conflito conosco. H muitos, contudo, que souberam separar os tpicos, ver a religio como motivao moral, e a cincia como a forma de realmente explicar a natureza. Exemplo contemporneo  o geneticista Francis Collins, cristo e um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Ele tira sua base moral da Bblia, mas jamais responder a uma pergunta sobre a origem do universo dizendo: "Bem, vamos verificar no Gnesis". 

Os religiosos vem a aparente ordem do universo, regida pelas leis da fsica, como prova de que h uma lgica superior organizando tudo... 
Sim, a natureza se repete, e por isso definimos regras, como a lei da gravidade. Mas  preciso tomar cuidado com essa abordagem. O.k., Deus ento fez as leis da fsica, como j definia o filsofo Baruch Espinosa no sculo XVII. S que isso quer dizer que Ele ouve suas preces? Ou que ajuda religiosos a vencer guerras contra outros religiosos? Ou que Ele tem barba? Foi esse Deus que falou com Moiss? Se tudo isso for tomado como verdade, ento podemos dizer que Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua. Ele permite,  portanto, que uma criana morra de leucemia. Ou ainda faz vista grossa diante de furaces e vulces que matam milhes, incluindo jovens e humanitrios. Para acreditar em Deus,  preciso levar tudo em conta. Se Ele est por trs de tudo,  muito bom em matanas. Afinal, mais de 99,9% das espcies de seres vivos que passaram pela Terra foram extintas. Isso  o acaso da natureza? Ou  Deus? Seja qual for a resposta escolhida,  preciso assumi-la tanto para o lado belo como para o terrvel. 

O senhor acredita em Deus? 
Dediquei tempo para pesquisar listas de deuses na internet. Demora muitos minutos s para passar com o mouse, sem ler, por um compilado de divindades nas quais a humanidade acredita. So milhares! Quer dizer que a escolha de um desses deuses pressupe, sem escapatria, a ilegitimidade de todos os outros? Esse conflito de ideias no  tranquilo, levou a muitas guerras. Indo alm, debrucei-me sobre o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristo. Quais so suas propriedades celebradas? A bondade, o poder absoluto e a oniscincia. Visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele  assassino? Se sim, no  bondoso. Se no, Ele no  onisciente, ou todo-poderoso. Para mim, essas escolhas parecem randmicas. No vejo evidncias que corroborem a existncia de Deus. Se h um terremoto, no  fria divina. Gelogos avisaram que a rea era vulnervel. No adiantava rezar pelo Haiti. O terremoto que abalou o pas recentemente ocorreria de qualquer jeito. No me importo se acreditam em deuses. S acho que quem segue essa linha cega no pode distribuir culpas por a. 

O senhor utiliza frequentemente o termo "polcia do pensamento".  uma forma de definir a postura religiosa que ignora solenemente o pensamento cientfico? 
Quando emprego essa definio,  para falar das pessoas que tentam ter e exercer poder pela fora de seus pensamentos. Ou seja, impondo o que todos podem, ou devem, acreditar. Essa  a "polcia". Na cincia, no fazemos isso. A cincia  inimiga da "polcia do pensamento". 

O modo de fazer cincia mudou radicalmente ao longo da histria e, hoje, h quem acredite que o tradicional mtodo cientfico est em xeque, ante o advento de modernas tcnicas de coleta de informaes, como o uso de algoritmos, big data, e da internet como forma de acelerar e simplificar o processo.  isso mesmo? 
Podem alterar as maneiras, mas no a raiz do mtodo cientfico. As pessoas leem em livros sobre como realizar experimentos e acham que precisam seguir aquela maneira bsica. Mas o pensamento cientfico vai alm, e tenho uma definio simples para ele. Raciocinar cientificamente  realizar o que for preciso para no se transformar em burro. No aceite verdades vindas de cima e procure provar argumentos. Esse elemento fundamental da cincia nunca deixar de existir. 

A era da internet, na qual qualquer um pode publicar um artigo on-line, apresentando-o como "cientfico",  ruim para os estudos? 
Parei de julgar as novas tecnologias. Quando a escrita foi inventada, h milnios, certos pensadores se opuseram, disseram que seria uma forma de retardar nossa memria. Hoje, sabemos quanto os livros concederam poder s pessoas. Passamos por processo similar com a internet. Quando ela surgiu, havia uma piada segundo a qual a web era a maior livraria do planeta, s que nela as obras estariam jogadas por todos os lados, sem organizao. A veio o Google, uma forma de buscar essas informaes. Ou seja, sempre conseguimos extrair o melhor de cada nova tecnologia. 

Em que se baseia sua conhecida convico de que existem formas de vida fora da Terra? 
Qualquer um que estude o tema chegar  clssica resoluo de que vivemos em um planeta qualquer, que orbita uma estrela no particular, em uma galxia indistinguvel. A probabilidade matemtica de haver vida fora da Terra  praticamente de 100%. A, voltamos  religio. Algumas crenas se apoiam no pressuposto de que a vida terrestre  sagrada. A Bblia afirma que Deus criou os cus, a Terra e o homem. Ponto. No os cus, a Terra, o homem, e tambm outros planetas, outras estrelas, outros seres. Encontrar vida fora daqui desafiar esse pensamento. Mas sobreviveremos. Como soubemos viver depois de notar que o Sol no rodeava a Terra. 

Mas a maioria das pessoas parece avaliar a explorao espacial como algo to caro que soa desnecessrio... 
Veja o que ocorreu com a civilizao toda vez que expandimos horizontes. Sem exploradores, estaramos presos a cavernas. Dependemos daqueles que olharam para alm das paredes cavernosas, que se aventuraram pelos vales, que passaram montanhas e oceanos. Esse esprito nos trouxe a cincia, inovaes, e fez a economia progredir. Caso uma nao no invista nisso, e a prxima fronteira  o espao, ela est se preparando para um grande fracasso, incluindo o aspecto econmico, em um futuro breve. 

O senhor aborda temas complexos da cincia com linguajar de fcil compreenso. O que aconteceria se a cincia permanecesse restrita aos especialistas, sem chegar aos leigos? 
O astrofsico Carl Sagan (1934-1996) foi quem comeou essa essencial traduo da cincia para todos. S dei prosseguimento, e por isso escolho apresentar um argumento que era dito por ele. Na grande maioria dos pases, como nos Estados Unidos, as atividades cientficas so majoritariamente financiadas pelo governo, por rgos pblicos. De onde vem o dinheiro? Dos impostos pagos pelos cidados. Logo, voc, e todo mundo, financia experimentos cientficos, cujos resultados podem afetar a poltica, a economia, a sade pblica, a civilizao. Depois de Carl Sagan ter pensado sobre isso, cientistas, como eu, passaram a entender ser nosso dever prestar contas para a populao, que precisa saber pelo que paga. Portanto,  fundamental explicar a relevncia, e os efeitos, das descobertas cientficas. 

 tambm uma boa forma de levar jovens a se interessar pelos estudos? 
Claro, e me tomo como exemplo. Tive certeza de que seria um cientista j aos 9 anos, em idas ao planetrio de Nova York, o Hayden (hoje dirigido por Tyson). Aos 11 anos eu j tinha a resposta para a pergunta mais comum feita pelos adultos a crianas: o que voc quer ser quando crescer? Eu seria astrofsico. Quando me candidatei a universidades, Carl Sagan, j famoso, era docente em uma delas, a Cornell. Como na carta que remeti para ser aceito eu escrevia sobre o interesse pelo espao, enviaram-na para Sagan avaliar. Ele tomou a liberdade de me mandar, de prprio punho, uma resposta escrita, convidando-me para uma visita a seu laboratrio. Nunca me esquecerei do encontro, e de como ele me mostrou as maravilhas da cincia. Tenho at hoje guardado um livro com que Sagan me presenteou, com sua dedicatria. Esses gestos de educadores como Sagan motivam estudantes. A visita me ajudou a definir que tipo de cientista gostaria de ser. Um cientista da linha dos que abrem portas, no as fecham. 

Para muitos, porm, a cincia, principalmente ao aplicar termos complicados, parece um departamento exclusivo dos inteligentes, longe do ser humano comum. 
Trata-se, na verdade, de um assunto distante e prximo ao mesmo tempo. Quando pessoas se desconectam da cincia, no as culpo. Nem a cincia. Os verdadeiros responsveis so os educadores. Na escola  comum tratarem jovens como vasos vazios onde se enfiam frmulas e certezas, necessrias apenas para ingressar na faculdade. Cincia no  isso. O que ? Uma maneira de viver, de olhar como o mundo funciona.  uma forma de realizar perguntas e explicar a natureza. Muita gente julga: "No  importante". Mas logo depois recebe no celular uma ligao da vov, que mora a 3000 quilmetros de distncia. Amigo, isso s foi possvel ocorrer por haver cincia. A populao por vezes tem nossas descobertas e realizaes como algo normal. Mas no era comum falar com algum to longe, em tempo real, h poucas dcadas. Quem permitiu isso? A cincia. No  interessante?  por a que se deve comear,  um passo inicial fascinante. H coisas incrveis, que podemos descobrir juntos. Os termos complicados s aparecem bem depois dessa motivao. 


1#4 LYA LUFT  A VIDA SURREAL
     A coluna anterior foi "A vida real", falando do preparo e enfrentamento das realidades da vida para jovens  mas tambm para os que votaro nas prximas eleies. Hoje me interessam aspectos mais que irreais da vida do brasileiro: so os nossos dias surreais, a cada manh engasgados com as frases que se dizem e os fatos que ocorrem no Brasil. 
     Autoridades mximas pronunciaram  apareceu inclusive na televiso  primores como: "a mandioca foi a maior conquista do Brasil"  e os cus no se abriram, os mares no nos engoliram. Fizeram-se muitas chacotas a respeito, mas a vida prosseguiu. Afirma-se que a inflao est controlada, logo estaremos timos, tudo  s uma transio: que transio haver neste fundo de poo? No mximo revirar-se um pouco para um lado e outro, esfolando corpo e alma nas paredes em torno. Armnio Fraga, numa excelente entrevista  imprensa, diz que ainda estamos longe dele, que esse fundo chegar  se as coisas no mudarem radicalmente  no imprevisvel tempo de um pas em que a maior parte das coisas e pessoas parece estar de cabea para baixo. 
     Conhecidos empresrios so presos, advogados reclamam que no devia ser assim. Primeiro investigar, depois condenar, depois prender: sim, isso em tempos ditos normais. S que nestes tempos "normais" ocorreram as maiores roubalheiras e grassou a mais grave corrupo. Estamos em tempos diferentes, em que no d para bobear ou tudo continuar a nos reduzir aos inadimplentes, sofredores, perplexos, desempregados ou ameaados de ficar sem trabalho que hoje somos. 
     Lderes investigados continuam afirmando que de nada sabiam: "No se consegue perceber corrupo ao nosso redor". Ento, substituam-se por gente saudvel todos os mandantes do pas e  diretores e presidentes de empresas, pois estvamos nas mos de enfermos cegos, surdos  mas no mudos, pois diziam tolices ofensivas a qualquer mediana inteligncia. 
     Na trajetria dos ltimos anos fomos afundando, em geral sem perceber, porque somos iletrados, no lemos jornal, na televiso preferimos ver as chanchadas cujo ttulo no proferirei aqui. E os que liam, que se informavam, que podiam se dar a esses luxos e abriam a boca eram acusados de contrrios ao bem do povo. O mal do povo chegou, e no foi porque alguns alertavam, mas sim pela incompetncia de uns, ganncia de outros, pensamento torto de terceiros, a uma previsvel beira de abismo. Por a tateamos, como a figurinha que eu curti na adolescncia, a tirinha de Mr. Magoo (ainda existe o simptico baixinho de culos de fundo de garrafa?), sempre caminhando bem na beira de um penhasco tremendo, que nunca o engolia. Ns seremos tragados? 
     A gente no sabia, nem imaginava que esses que hoje nos acusam de dio nos odiavam tanto ou nos ignoravam de tal maneira. Virou moda, at entre pessoas inteligentes, falar em dio: sinto muito, mas foi incitao ao dio de classes e ao dio racial repetir, tempos atrs, que "as elites brancas" (ou "os brancos de olhos azuis") no querem que os pobres tenham nada, mas comprem, comprem, comprem carro, troquem a geladeira, comprem TV de tela plana, andem de avio e por a afora. E ns, os hoje inadimplentes e desempregados ou ameaados de ficar sem trabalho, camos na esparrela, e pelo voto ajudamos o Brasil a chegar a este fundo ainda no bem fundo de poo. 
     Este  um momento dramtico: a educao abandonada ou com falsas promessas que no se realizaro. A sade apodrecida, na qual j nem se fala oficialmente. Agora vir a Olimpada: que os deuses nos livrem de mais obras gigantescas que consomem milhes, e no sero concludas  ou depois ficaro inteis. 
     Quantas creches, hospitais, casas, escolas, estradas, quanta polcia bem preparada, quanta dignidade para todos haveria se essas fortunas tivessem sido aplicadas para o bem do povo? E mais: como recuperar a confiana que animaria empresrios brasileiros e estrangeiros a fomentar o to maltratado progresso no pas? 
     Perguntas reais num mundo surreal: quem puder responder, responda. 

LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR
DELAO DE RICARDO PESSOA
Realmente,  espantosa a delao do dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa (" sombra do empreiteiro", 1 de julho). A histrica edio 2432 de VEJA deveria ser distribuda a todos os empresrios presos pela Operao Lava-Jato que ainda no fizeram delao. Seria um estmulo a mais para eles falarem o que sabem, uma vez que o barco do PT j afundou. E, por mais que o ex-presidente Lula queira dar uma de capito Schettino, abandonando o barco, as evidncias das delaes, principalmente a de Ricardo Pessoa, vo atingi-lo. 
SRGIO PENNA BARBI 
Belo Horizonte, MG 

Entre a imprensa livre e o governo corrupto, trava-se uma batalha insana que comeou com a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002. Lula assim se expressava: "Como todos os brasileiros, quero a verdade completa.  com essa convico que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanas corajosas e responsveis". A reportagem " sombra do empreiteiro" mostra quem nos governou e quem nos governa. 
CARLOS ALBERTO LIMA 
Florianpolis, SC 

A 'sombra' do delator Ricardo Pessoa deve tirar o sono dessa gente encastelada no Palcio do Planalto desde 2003. 
ABEL PIRES RODRIGUES 
Rio de Janeiro, RJ 

No futuro teremos a real dimenso da importncia histrica de VEJA para a democracia brasileira. A reportagem de capa da edio 2432, que li pela madrugada no tablet, vai tirar o sono dos corruptos e dos que se julgavam acima da lei. A reportagem, redigida brilhantemente, devolveu-me o sono com a certeza de que estamos atravessando um marco que os historiadores podero aquilatar no futuro. 
CLIA RIBEIRO 
Marlia (SP), via tablet 

Nunca antes na histria deste pas tantas palavras ("Brahma", "tulipa", "caneco", "mochila", "pixuleco", "crise", "roubalheira", "safadeza"...) apontaram para apenas duas letras: PT. 
SIDNEY DE OLIVEIRA NOVAES JR. 
Foz do Iguau, PR 

Depois das revelaes do empreiteiro Ricardo Pessoa, que detalham a partilha da corrupo que destruiu a Petrobras, falta agora o Brasil ver o principal personagem deste filme de horror ser chamado a prestar contas  Justia. Ele deve estar vendo que os seus dias de glria acabaram e sabe que chegou a hora de responder pelos seus atos perante a nao brasileira. 
AMARILDO GEORG 
Blumenau, SC 

Estamos chegando queles e quelas que nunca souberam "de nada", mas que de tudo se aproveitaram. 
JOS ETULEY BARBOSA GONALVES 
Ribeiro Preto, SP 

Repudio a indevida, leviana e irresponsvel incluso do meu nome em lista de doaes ilcitas e recebimento de propina da UTC Engenharia na campanha de 2014, divulgada na reportagem " sombra do empreiteiro". O delator tenta jogar meu nome na lama suja da corrupo da Petrobras. Esclareo que, no dia 5 de agosto de 2014, a UTC doou 150.000 reais para conta de campanha do PSB de Minas Gerais. Foi feita uma transferncia bancria para a conta 25.612-9, agncia 1584-9 do Banco do Brasil. A soma doada pela UTC foi repassada para dezesseis candidatos a deputado estadual e federal. No recebi um centavo sequer desses recursos. Todas as transferncias esto declaradas na Justia Eleitoral e disponveis para consulta pblica. Nunca participei de esquema esprio para inibir qualquer tipo de investigao de corrupo da Petrobras no Congresso. Minha atuao parlamentar sempre foi enftica em defesa da apurao de irregularidades no setor pblico e do resgate da imagem do Parlamento brasileiro. Foi com esse esprito que relatei os processos por quebra de decoro parlamentar no Conselho de tica da Cmara que levaram  cassao do ex-ministro Jos Dirceu, em 2005, e de Andr Vargas, em dezembro de 2014. No primeiro dia da CPI da Petrobras, em maro deste ano, apresentei um requerimento de convocao de Ricardo Pessoa para prestar depoimento. H uma clara tentativa de me usar para desmoralizar os trabalhos da CPI da Petrobras, cuja responsabilidade  esclarecer o esquema de corrupo montado para desviar recursos pblicos. 
JLIO DELGADO 
Deputado federal (PSB-MG) 
Braslia, DF 

A propsito das afirmaes atribudas a Ricardo Pessoa em sua delao premiada, nego e repudio categoricamente que tenha recebido ou intermediado valores ou contratos conforme narrado na reportagem. Reitero que estou  disposio das autoridades para quaisquer esclarecimentos. 
PEDRO PAULO LEONI RAMOS 
Por e-mail 

CARTA AO LEITOR 
VEJA sempre nos impressionou pela boa qualidade de seu contedo, com textos muito bem escritos pelos seus jornalistas e colaboradores. Mas as reportagens detalhadas com a clareza e a riqueza de informaes da Operao Lava-Jato merecem meno honrosa. A revista est prestando um enorme servio  populao e a todos os cidados que se sentem impotentes diante de tanta malandragem e cara de pau de polticos e altos executivos de empresas to importantes. Ficvamos imaginando a equipe por trs desses textos debruada nas informaes, detalhando e esmiuando tudo para levar, de forma clara e objetiva, informao  populao. Ao redator-chefe Policarpo Jnior e a seus excelentes reprteres investigativos, o nosso muito obrigado ("A servio dos governados", Carta ao Leitor, 1 de julho)! 
DBORA SCOLMEISTER E JOO CARLOS PIROTTA 
So Paulo (SP), via smartphone 

Parabenizo o jornalista Policarpo Jnior e sua valorosa equipe (Rodrigo Rangel, Robson Bonin, Daniel Pereira, Adriano Ceolin e Hugo Marques) pelo brilhante trabalho que, semanalmente, me faz esperar VEJA com crescente ansiedade. Vocs esto escrevendo a histria do Brasil contemporneo e ajudando esse sofrido pas a se livrar das pegajosas e sujas mos que o asfixiam. 
HAROLDO FROTA 
Curitiba (PR), via tablet 

O reconhecimento que VEJA faz aos jornalistas que com coragem, esprito cvico e destemor tiraram a sujeira debaixo do tapete e deram aos brasileiros de boa-f a coragem para enfrentar o futuro  a pgina mais bela de todas as edies. So seis figuras com a face serena do cumprimento do dever e da solidariedade para com quem no tem a fora nem o conhecimento para desvendar os esquemas quase perfeitos da corrupo que envergonha, infelicita e rouba uma nao continental. A foto publicada  emocionante e me sinto recompensado por ter mais pessoas para admirar e respeitar. 
ALBERTO KAEMMERER 
Porto Alegre, RS 

J.R. GUZZO 
No artigo "O fogo de Curitiba" (1 de julho), de J.R. Guzzo, a disseco do personagem Lula  feita de maneira to leve e perfeita que atinge o status de arte. Expe com clareza aquilo que todos sabemos e cujas provas apenas aguardamos que se materializem. Ento ele no poder mais se travestir de indignado, atirar at nos companheiros feridos e se tornar um dos muitos que rejeitam Dilma.  at cmico (dentro da desgraa)! Esperemos o fim breve da tragicomdia que vivemos... 
DCIO ANTNIO DAMIN 
Porto Alegre, RS 

GUSTAVO IOSCHPE 
Havia muito tempo que no lia algo to real, til e preciso em quem atingir. O tema explorado por Gustavo Ioschpe no artigo "Por que voc no faz nada?" (1 de julho) vai fundo na questo de como ns, brasileiros e brasileiras, devemos ser mais presentes na vida do pas e dos nossos filhos. Ele deveria ser lido em todas as escolas, principalmente em reunies dos pais, diretores, professores e proprietrios de escolas particulares. Perfeito em todos os sentidos. 
ANTONIO CARLOS AZEVEDO DOS SANTOS 
Bauru, SP 

Espetacular o artigo de Gustavo Ioschpe. Nossa inrcia  impressionante. Sugiro que, por volta dos 4 anos, os pais leiam para os filhos, antes de dormir, um captulo de um bom livro infantil, parando num momento de suspense para continuar na noite seguinte. Li Monteiro Lobato assim para meu filho e ele aprendeu a ler rapidamente, para poder faz-lo por conta prpria. Hoje  um leitor voraz em portugus, francs e ingls. 
PAULO ROBERTO PIRES 
Barra Mansa, RJ 

CLUDIO LOTTENBERG 
Foi com muita satisfao que li a bem conduzida entrevista com o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Cludio Lottenberg ("O mdico  um individualista", 17 de junho). Ela mostra a grandeza de um dos mais importantes centros de sade da Amrica Latina e do mundo, o hospital que preside, e o porqu desse sucesso. Grande parte dessa imagem positiva e reputao inabalvel d-se pela conduo de Cludio. Entre vrios pontos de que gostei muito, destaco aquele em que ele diz que a excelncia da instituio est profundamente ligada aos valores judaicos, j que o judeu  um eterno questionador e sempre tem a convico de que deve fazer mais. Alm disso, Cludio fala sobre as fragilidades do mdico, a importncia de o tratamento ser mais humanizado e de lidar com o doente a partir de suas fraquezas. Uma lio de competncia, humanismo e positividade. 
FLORIANO PESARO 
Secretrio de Estado de Desenvolvimento Social 
So Paulo, SP 

CLUDIO DE MOURA CASTRO
 oportuno o artigo "Where is Aracaju?" (1 de julho), no qual o economista Cludio de Moura Castro relata a saga vitoriosa de Jouberto Ucha, fundador e reitor da Universidade Tiradentes (Unit), em Aracaju (SE), instituio reconhecida pela qualidade do ensino que oferece e pelos altos investimentos em pesquisa. Diante da fora da internacionalizao, a Unit se preparou para dar um grande salto  a abertura do Tiradentes Institute, associado  Universidade de Massachusetts (Boston, Estados Unidos)  e para enfrentar um desafio ainda maior: firmar presena estratgica na terra do Tio Sam. Esse feito demonstra uma vitria importante do ensino superior particular brasileiro. 
GABRIEL MRIO RODRIGUES 
Presidente da Associao Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) 
Braslia, DF 

O "senhor Ucha"  um exemplo a ser seguido por todos ns para que este pas volte a ter um pouco de esperana. Ele  uma gota que vale muito mais do que o oceano de insanidades que vivemos hoje em dia em nossa "ptria educadora". 
EMLIO AZEVEDO 
So Lus, MA 

O Brasil, infelizmente, sempre fica em posies medocres em rankings internacionais, principalmente em cincias e matemtica. O que tambm deve ser destacado  a mediocridade da formao de um estudante brasileiro em um idioma estrangeiro. Em vrias universidades brasileiras, a proficincia em uma lngua estrangeira aplicada aos alunos de mestrado e doutorado beira o ridculo. Eles so considerados proficientes apenas por realizar interpretaes de texto simplistas, e, frequentemente, com a ajuda de um dicionrio. Muitos estudantes brasileiros optam por fazer estgio pelo Cincia sem Fronteiras em universidades portuguesas para fugir de outro idioma. Grotesco. Pode-se alavancar a cincia brasileira com muito pouco. 
MAX FURRIER 
Professor doutor 
Centro de Cincias Exatas e da Natureza 
Universidade Federal da Paraba 
Joo Pessoa, PB 

UMBERTO ECO 
Autor de obra realmente reconhecida por seu valor intelectual mundo afora em diferentes campos, o escritor italiano Umberto Eco atesta, ao longo de sua entrevista a VEJA ("A conspirao dos imbecis", 1 de julho), a capacidade de acerto e de desacerto do ser humano. De fato, h muita bobagem na internet. Dentro de seu modelo distributivo, dinmico e hipertextual, de estrutura horizontal e vertical, ela permite que receptores e emissores interajam com maior agilidade. Ao propiciar que pessoas de profisses as mais diversas, qualquer que seja sua escolaridade, raa, nacionalidade, idade, sexo, religio, posto hierrquico, livres de fronteiras e leis, exeram o supremo direito de externar seu pensamento e suas "imbecilidades", o uso indiscriminado da Grande Rede comea a causar transtornos. A infinidade de dados disponveis dificulta sua seleo e contraria os princpios elementares dos servios de informao, que pretendem responder s solicitaes em tempo recorde e de maneira a mais amigvel possvel, exigindo de educadores e de educandos formao em como utilizar os recursos eletrnicos com segurana e com a sonhada rapidez e confiabilidade. No entanto, Eco se equivoca ao afirmar que o italiano Dante Alighieri, o francs Honor de Balzac, o russo Leon Tolstoi e ele prprio conseguem escrever para todo tipo de leitor. Alm da visvel empfia,  puro e notrio que nenhum escritor alcana todos os indistintos pblicos, haja vista que as coletividades guardam sagradas particularidades. Ou seja, em meio a tanta complexidade, no se pode negar que a proliferao das tecnologias da informao est facilitando a vida de alguns, dificultando a de outros, mas, com certeza, alterando a vida de todos. 
MARIA DAS GRAAS TARGINO 
Professora doutora em cincia da informao 
Teresina, PI 

Da mesma forma que Umberto Eco acha que a internet  o caminho para que os imbecis opinem, acho que a literatura  o caminho para que os escritores imbecis opinem. Num mundo com centenas de milhares de literatos, certamente existem muitos imbecis. Na literatura o imbecil pode escrever sobre tudo o que no entende. 
JOS ANTONIO PEREZ SILVEIRA 
Fortaleza, CE 

Umberto Eco ofende os imbecis... Darwin, Descartes, Ptolomeu, Galileu Galilei e vrios outros assim foram chamados na poca. Eco tambm no  uma unanimidade. Na entrevista a VEJA, ele desfaz de professores, jornalistas, jornais, internet e do respectivo pblico. Ser que ele pretende promover a censura? Opinies ou ideias no se glosam, no se julgam: aproveitam-se ou no, por uns ou outros conforme sua capacidade. 
ALFREDO EUGNIO BIRMAN 
So Paulo, SP 

NOBREZA 
Assim como o "conde de Wilson", tenho conhecimento de ser descendente do imperador Carlos Magno ("Nobreza sem monarquia", 1 de julho)  ele, eu e cerca de 10% da populao europeia, uma vez que nosso ilustre ancestral tinha o hbito de se reproduzir com vrias concubinas. E, assim como o conde, eu e grande parte da populao europeia tambm descendemos de bandidos, prostitutas, estupradores, piratas e camponeses. No h como ter o sangue "100% nobre". A verdadeira nobreza est nas atitudes e aes de cada um. 
PAULO S. GERRITSEN PLAGGERT 
So Paulo (SP), via smartphone 

ROLLING STONES 
Ler o texto assinado pelo jornalista Okky de Souza sobre os Rolling Stones trouxe um sabor extra para a crtica do relanamento do lbum Sticky Fingers ("Um colosso do rock", 1 de julho). Procurei meu antigo vinil e, como se dizia  poca, deixei rolar. Parabns pelo texto, Okky. 
WALMIR DE MEDEIROS LIMA 
Santo Andr, SP 
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2# PANORAMA 8.7.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM MATRICDIO IDEOLGICO
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM WANDERLEY NUNES  PETISTAS X CABELEIREIROS CHIQUES
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM MATRICDIO IDEOLGICO
O jihadismo que nasceu da Irmandade Muulmana ganha terreno no Egito.

A Irmandade Muulmana  a me do jihadismo sunita contemporneo. A organizao egpcia, fundada h quase noventa anos, inspirou Osama bin Laden a criar o grupo terrorista Al Qaeda e islamistas palestinos a fundar o Hamas. O Estado Islmico no Iraque e na Sria (Isis)  uma dissidncia da Al Qaeda. Todos almejam a criao de um califado, um Estado regido por leis religiosas medievais. A Irmandade e seus filhotes diferenciam-se nos mtodos e na urgncia. Durante o curto perodo em que esteve no poder, no Egito, a Irmandade pretendeu instituir o Isl poltico de dentro das engrenagens do Estado j existente. O projeto foi interrompido por um golpe militar que completou dois anos na semana passada. J a Al Qaeda defende a ideia de que, antes de instituir o califado,  preciso derrotar as democracias ocidentais em uma guerra continuada. Os chefes do Estado Islmico no quiseram esperar e, to logo conquistaram vastos territrios na Sria e no Iraque, declararam o califado aqui e agora. Isso os obriga a expandir constantemente seus domnios. Os ataques com mais de 200 terroristas contra duas dezenas de postos militares no Sinai, que terminou com dezessete soldados mortos (entre eles o primeiro-tenente Mohammed Adel Abdel Azeem, cujo cortejo fnebre atraiu multides no Cairo), demonstrou que o Estado Islmico tem um p fincado na pennsula que faz fronteira com Israel. Dois dias antes, a exploso de um carro-bomba matou Hisham Barakat, procurador-geral do Egito e um dos principais responsveis por colocar no corredor da morte vrios lderes da Irmandade Muulmana. O governo militar acusou militantes do grupo, e retaliou matando treze deles em um apartamento. Conforme seus membros aderem ao jihadismo, a Irmandade morre lentamente. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Nicholas Winton, ex-corretor de aes britnico que se tornou conhecido como o "Schindler ingls". Seu nome passou a ser associado ao do industrial alemo que salvou 1200 judeus durante a II Guerra depois de 1988. O motivo: naquele ano, veio  tona que, entre maro e agosto de 1939, diante da ameaa dos campos de concentrao nazistas, Winton se empenhou para que 669 crianas deixassem a Checoslovquia para viver na Inglaterra. Tudo comeou no fim de 1938, quando Winton abandonou uma temporada de frias na Sua e foi para Praga, onde um amigo pretendia criar algum mecanismo para livrar filhos de famlias judias da perseguio movida pelo nazismo. No hotel em que se hospedara, o corretor comeou a receber os pais que, em pnico, queriam enviar suas crianas para longe das foras de Hitler. Passou ento a cuidar do assunto. Conseguia os documentos para a imigrao, encontrava famlias inglesas dispostas a adotar os meninos e meninas e ainda obtinha recursos para pagar o transporte deles at Londres. No processo, no hesitou em subornar agentes alemes para que fizessem vista grossa ao que ocorria. Durante cinco dcadas, Winton escondeu at mesmo da mulher o que havia feito. Mas em 1988 ela acabou descobrindo no sto da casa em que moravam listas e cartas que revelavam toda a operao. No mesmo ano, a BBC surpreendeu Winton ao reunir algumas das pessoas que ele resgatara. Em 2002, o "Schindler ingls" se tornou membro da Ordem do Imprio Britnico. Dia 1, aos 106 anos, em Maidenhead, Inglaterra. 

Chris Squire, baixista londrino, cofundador da banda inglesa Yes, de rock progressivo. Ele foi o nico msico a participar da gravao de todos os lbuns do grupo. Christopher Russell Edward Squire comeou a carreira cantando num coro infantil. Pouco depois de deixar o ensino mdio, lanou-se como msico. Inicialmente, fez parte de uma banda chamada Syn. Em 1968, ao lado do vocalista Jon Anderson, fundou o Yes, cuja primeira formao contava ainda com o guitarrista Peter Banks, o tecladista Tony Kaye e o baterista Bill Bruford. Autodidata, Squire seria fundamental na constituio do som que caracterizou o grupo, marcado pela mistura de ritmos. Com diagnstico de leucemia, o msico j havia anunciado no ltimo ms que no iria participar da turn do Yes programada para comear em agosto. Dia 27, aos 67 anos, em Phoenix, no Arizona. 

Otvio Basso, maestro e produtor paulista, arranjador de sucessos como Entre Tapas e Beijos e Pense em Mim, gravados pela dupla Leandro & Leonardo. Nascido em Rio Claro, dedicou-se  msica desde a infncia  com apenas 7 anos de idade, tinha aulas de acordeo com Braguinha. Morando em So Paulo, fez parte do grupo Os Impossveis, que acompanhava alguns dolos da jovem guarda. Na sequncia, comeou a trabalhar com Amado Batista e se firmou no universo sertanejo. Alm de Leandro & Leonardo, contaram com seus arranjos nomes como Zez Di Camargo & Luciano e Joo Paulo e Daniel. Dia 27, aos 69 anos, de infarto, em So Paulo. 

Ievgueni Primakov, ex-premi da Rssia (1998-1999). Ucraniano de Kiev, especialista em Oriente Mdio, foi ministro das Relaes Exteriores (governo Boris Ieltsin, 1996-98). Antes, dirigiu o servio de inteligncia exterior russo (1991-96). Em toda a sua carreira, ops-se  ideia de uma hegemonia americana. Dia 26, aos 85 anos, em Moscou. 


2#3 CONVERSA COM WANDERLEY NUNES  PETISTAS X CABELEIREIROS CHIQUES
Um dos mais famosos hair stylists do pas, amigo do ex-presidente Lula, briga para no ter de pagar de acordo com as regras da CLT.

Por que o senhor  contra a remunerao com carteira assinada? 
O sistema  ruim para eles e para mim. Nos sales frequentados pelas classes A e B, os cabeleireiros ganham 50% de comisso sobre o que fazem e pagam 7% de imposto. Assim, no meu salo, eles tiram at 50.000 reais por ms. Se passarem a ter carteira assinada, vo ficar com uma comisso de 13% e pagar cerca de 27% de imposto. Para o empregador, a carga tributria tambm subiria muito. Pago conforme as regras da CLT a assistentes, secretrias e estoquistas, que tm rendimentos menores. 

Como um cabeleireiro consegue ganhar uma fortuna dessas? 
Corte, hidratao e tintura aqui saem por volta de 300 reais, e, por ms, em meus oito sales, atendemos 30.000 clientes. A maioria dos cabeleireiros estudou fora, fala outras lnguas e faz cursos semanais. 

Essa lgica da penalizao pela alta tributao da CLT vale para sales pequenos, em que cabeleireiros no ganham to bem? 
No. Para esses, a CLT se enquadra melhor. Por causa dessas diferenas, o ideal  que cada estabelecimento tenha livre-arbtrio para decidir sua forma empregatcia.  

Na ltima quarta-feira, foi aprovado em uma comisso da Cmara dos Deputados um projeto de lei que prope algo semelhante ao que o senhor pleiteia: os sales e os cabeleireiros decidem que tipo de regime tero. Por que a grita persiste? 
Porque o projeto ainda passar por outras comisses at que chegue ao Senado. E h uma movimentao de deputados petistas que defendem s a carteira assinada. Eles querem extinguir a profisso no pas! 

Por que o senhor no pede ajuda ao ex-presidente Lula e  mulher dele, de quem o senhor  to amigo? 
Tenho ligado insistentemente para o Lula e falei que, se eu quebrar, vou morar na casa dele. Pedi tambm a Marisa, mas ela s fala de viagens e comida. Conversei ainda com o senador Acio Neves, com o Joo de Deus e at com uma me de santo. 


2#4 NMEROS
30 funcionrios, doze alm dos dezoito atuais, poder contratar cada um dos 55 vereadores de So Paulo, segundo projeto aprovado por eles prprios. O texto ainda depende de sano do prefeito Fernando Haddad. 
5,5 milhes anuais a mais para os cofres pblicos  o que devem custar esses novos funcionrios, que no so concursados, apenas em benefcios como vale-refeio e vale-transporte. 
22 funcionrios  a cota a que tm direito os congressistas americanos.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Agronegcio -  Impulsionado pelo trigo e pelo arroz, o Brasil ser o maior exportador agrcola mundial em 2024, segundo projeo da OCDE e da ONU. 
Boston -  A cidade americana props sediar a Olimpada de 2024 com gasto de 4,6 bilhes de dlares, quantia 100% proveniente da iniciativa privada. O oramento do Rio, 2,6 vezes maior, conta com 60% de dinheiro pblico. 
Cisgnero -  Contraponto para transgnero, a palavra que significa "pessoa que concorda com o gnero sexual que lhe foi atribudo no nascimento" entrou para o dicionrio Oxford.

DESCE
Muralha da China -  Cerca de 30% da estrutura erguida h mais de dois milnios j desapareceu, furtada por gente que usou seus tijolos para construir casas. 
Fila da imigrao -  Com o ingresso do Brasil no Global Entry, brasileiros que viajam frequentemente aos Estados Unidos podero ter reduzido de vinte minutos para quarenta segundos o tempo gasto para entrar no pas. 
Azeite de oliva -  Devido  seca na Espanha e a uma praga nas oliveiras da Itlia, a produo do leo caiu 30% e os preos atingiram o pico em nove anos.


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
UM DEGRAU ACIMA
A certeza de que a crise poltica subiu de patamar se deve s conversas que dominam a cpula do PMDB desde a revelao da delao premiada de Ricardo Pessoa. S se fala no ps-Dilma. 

 GRAVE? 
Ainda na cpula do PMDB, a sensao  de que Dilma Rousseff aparenta, de fato, no estar percebendo a gravidade da situao. 

NO EST FCIL 
A agenda negativa do governo a curto prazo  coisa para quem no precisa de cardiologista: julgamento das pedaladas no TCU, as bombas da delao premiada de Ricardo Pessoa, contas de campanha sendo julgadas pelo TSE, o escndalo Fernando Pimentel... Isso sem contar com a inflao e o desemprego em alta e a recesso se aprofundando. 

 LAVA-JATO 
MAIS UM 
Os investigadores da Lava-Jato abriram uma frente de investigao especialmente para Beto Richa. J comearam inclusive a interrogar delatores sobre negcios envolvendo o governador tucano. 

DEPOIMENTO ALGEMADO 
Todos os presos pela Lava-Jato tm prestado depoimento na PF de Curitiba algemados. Nem Marcelo Odebrecht nem Otvio Azevedo foram poupados. 

ELEVADO, MAS... 
O alto endividamento da Odebrecht (66 bilhes de reais) somado  priso do seu presidente no  uma boa combinao  e isso ningum discute. Mas trs banqueiros com intimidade com os nmeros da empresa garantem que a situao deve ser vista sob outra perspectiva. Primeiro, a Odebrecht tem 22 bilhes de reais em caixa  o que "d para aguentar muito desaforo", na viso de um deles. E, em segundo lugar, o grupo no tem dvidas vencendo a curto prazo  os vencimentos mais pesados so para daqui a 24 meses. 

FECHANDO O CERCO 
A Interpol, a pedido da PF, notificou o TAG Bank, sediado no Panam e controlado pelo brasileiro Eduardo Plass, ex-presidente do Pactual, para que diga quem so os donos das offshores Golden Rock e da Blue Diamond. As duas empresas mantm contas no TAG Bank e a PF descobriu que fizeram pagamentos para offshores que seriam, segundo se suspeita, de notrios polticos brasileiros. 

AVANO DE GNERO 
A Lava-Jato  o retrato do fim do "Clube do Bolinha" que sempre foi a linha de frente dos criminalistas brasileiros. Vrias advogadas encabeam a defesa dos acusados: Mara Salomi (advogada de Edinho Silva), Dora Cavalcanti (Odebrecht), Beatriz Catta Preta (Paulo Roberto Costa, entre outros), Carla Domenico (Ricardo Pessoa) e Alessi Brando (Nestor Cerver).  

AS DOAES DA ANDRADE 
Eis uma notcia que tem tudo para tirar o sono de muitos polticos e dirigentes partidrios: no mesmo dia em que levaram Otvio Azevedo para a carceragem em Curitiba, os agentes da Polcia Federal apreenderam um documento que pode ser explosivo. No seu apartamento na Vila Nova Conceio, em So Paulo, o chefo da Andrade Gutierrez guardava nada menos que dez folhas de planilhas que associam partidos polticos a valores em dinheiro. Foi levado tambm outro material que pode ser revelador: 62 pen drives - um deles com a inscrio "e-mails antigos".  

 BRASIL 
"LA DOLCE VITA" 
Em 19 de setembro de 2012, Lula viajou para o Mxico com uma pequena comitiva, que inclua Kalil Bittar, scio do seu filho Lulinha. Evidentemente, nada de avio de carreira. Para o deslocamento foi alugado um Legacy 650. Quem pagou? A subsidiria americana da Odebrecht quitou a fatura de 780.000 reais. E nada de passar aperto. No contrato com a empresa de txi areo est escrito com todas as letras que nos voos de ida e volta no deveria faltar "vinho tinto francs de boa qualidade".

A SOMBRA DO MENSALO 
Foi retomada no STJ uma das aes de improbidade administrativa apresentadas em 2012 pelo MPF contra quinze rus do mensalo. O processo est no gabinete do ministro Herman Benjamin.  Entre os alvos da ao esto os notrios Delbio Soares, Jos Dirceu, Jos Genono, Slvio Pereira, alm de Marcos Valrio. 

UM EXAGERO 
A partir de um requerimento do senador Reguffe, o Ministrio do Planejamento foi obrigado a abrir nmeros impressionantes da mquina pblica. Reguffe quis saber quantos cargos comissionados existem no governo federal. Resposta oficial: 23.941 cargos a que o governo pode nomear ao seu bel-prazer. Para que o leitor possa comparar, na Frana esse tipo de nomeao fora da carreira pblica no passa de 4800 vagas e, nos EUA, 8000. O Brasil gastou 1,9 bilho de reais com esses cargos comissionados no ano passado.  

 ECONOMIA 
EFEITO PETROBRAS 
A Petrobras passou a avisar a alguns dos seus fornecedores desde o ms passado que encomendas feitas para ser entregues at 2017 podem ficar para 2020. Alm disso, claro, esto tentando renegociar os contratos. 

INTERESSE EXPLCITO 
A empresa de investimentos Tarpon est de olho no Laboratrio Fleury. 

QUEDA LIVRE 
A queda de vendas mais dramtica no varejo no primeiro semestre foi a das redes de eletroeletrnicos  cerca de 30%, em comparao com o mesmo perodo do ano passado. 

 LIVROS 
FATURANDO NA FRICA 
A famlia Macedo vai ganhar ainda mais dinheiro na frica  onde a Universal est presente com centenas de igrejas. Cristiane Cardoso, a filha do bispo Edir Macedo, lanar no continente Casamento Blindado, que rene os textos bblicos voltados para os casais. A tiragem inicial na frica ser de 50.000 exemplares. 

SEM LEITURA 
Junho foi o pior ms do ano para o mercado de livros. H editoras que tiveram queda de 30% nas vendas, em comparao a junho de 2014. 

 OLIMPADA 
VISO AMPLIADA 
A NBC, que detm os direitos de transmisso da Olimpada 2016 para os EUA, j alugou 85 apartamentos em frente ao Parque Olmpico do Rio de Janeiro para posicionar melhor suas cmeras. 

 TELEVISO 
ALM DA TELA DE TV 
Luciano Huck acaba de renovar o seu contrato com a Globo por seis anos. O documento envolve no apenas o seu programa na TV aberta  inclui tambm outras telas, como a internet, a TV paga e, eventualmente, at o celular. 


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Um dia, acredito que seremos capazes de enviar pensamentos completos uns aos outros diretamente usando a tecnologia. - MARK ZUCKERBERG, CEO do Facebook, ao fazer projees sobre o futuro da empresa, durante uma sesso de perguntas e respostas no mural de seu prprio perfil na rede 

Acabei de descer do futuro. - DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica (PT), aps passeio de vinte minutos no carro autodirigvel do Google, na sede da empresa, no Vale do Silcio 

No descumpri ordem de ningum, sou muito obediente. - JOAQUIM LEVY, ministro da Fazenda, garantindo que, aps ser internado em razo de uma embolia pulmonar, viajou para os Estados Unidos com sinal verde dos mdicos 

O ministro Levy  um bom cumpridor de ordens econmicas, administrativas  mas mdicas, no. - ARTHUR VIANNA, pneumologista que atendeu o titular da Fazenda, em entrevista ao site G1 

A soluo no est em alterar a maioridade penal, mas em corrigir as causas da delinquncia juvenil. -  MARCO AURLIO MELLO, ministro do Supremo Tribunal Federal, em O Estado de S. Paulo 

Podemos dizer algo muito importante: o mundo no acabou. - JLIO CALZADA, ex-secretrio-geral da Junta Nacional de Drogas, ao comentar, em O Globo, o impacto da legalizao da maconha no Uruguai, medida que ajudou a implantar quando ocupava o cargo 

Em geral, filmes de super-heris so totalmente sexistas. As super-heronas esto normalmente peladas ou de biquni. Ningum conseguiria lutar assim." -  CARA DELEVINGNE, atriz e modelo londrina, em entrevista  revista britnica Empire. Ela est no elenco do filme Esquadro Suicida

Acredito que sou muito mais inteligente do que demonstro. - KIM KARDASHIAN, socialite americana, na edio da Rolling Stone dos Estados Unidos 

Nossa! Puxei o acelerador para o lado errado. - LIAO JIAN-ZONG, piloto da aeronave da TransAsia Airways que caiu em Taipei, aps tocar em um txi e bater contra uma ponte, em fevereiro. Quarenta e trs pessoas morreram. O relatrio com o contedo da gravao da fala de Liao foi divulgado na semana passada 

 uma vergonha o ndice de 1,7 livro (lido) por ano. - JUCA FERREIRA, ministro da Cultura, na abertura de seminrio que discutiu a proposta de fixao de preo nico para os livros no pas, em tramitao no Senado 

O Brasil  de uma fidelidade a si mesmo enorme. Muda para no mudar.  metade corrupo, metade incompetncia. - EVALDO CABRAL DE MELLO, historiador, no Valor Econmico 

EPGRAFE DA SEMANA
A pretexto da crise na Grcia
O dinheiro, sozinho, governa todas as coisas. - PBLIO SIRO, escritor que viveu na Roma antiga (sculo I a.C.)
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3# BRASIL 8.7.14

     3#1 OS ARQUIVOS DO DELATOR
     3#2 O QUARTO ELEMENTO
     3#3 ELES FIZERAM A CASA CAIR
     3#4 ELE DOMINA AS REGRAS DO JOGO

3#1 OS ARQUIVOS DO DELATOR
As anotaes e as planilhas que revelam como funcionava o esquema de corrupo que unia governo, polticos e empreiteiros no saque ao caixa da Petrobras.
ROBSON BONIN

     O engenheiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC,  famoso por sua grande capacidade de organizao  caracterstica imprescindvel para algum que exercia uma funo vital no chamado "clube do bilho". Ele foi apontado pelos investigadores como o chefe do grupo que durante a ltima dcada operou o maior esquema de desvio de dinheiro pblico da histria do pas. O empreiteiro entregou  Justia dezenas de planilhas com movimentaes financeiras, manuscritos de reunies e agendas que fazem do seu acordo de delao um dos mais contundentes e importantes da Operao Lava-Jato. O material constitui um verdadeiro inventrio da corrupo. Em uma srie de depoimentos aos investigadores do Ministrio Pblico, Pessoa detalhou o que fez, viu e ouviu como personagem central do escndalo da Petrobras. Na sequncia, apresentou os documentos que, segundo ele, provam tudo o que disse. 
     VEJA teve acesso ao arquivo do empreiteiro. Um dos alvos  a campanha de Dilma de 2014 e seu tesoureiro, Edinho Silva, o atual ministro da Comunicao Social. Segundo o delator, ele doou 7,5 milhes de reais  campanha depois de ser convencido por Edinho Silva. "O senhor tem obras no governo e na Petrobras, ento o senhor tem que contribuir. O senhor quer continuar tendo?", disse o tesoureiro em uma reunio. O empreiteiro contou que no interpretou como ameaa, mas como uma "persuaso bastante elegante". Na dvida, "para evitar entraves" nos seus negcios com a Petrobras, decidiu colaborar para que o "sistema vigente" continuasse funcionando  um achaque educado. Mas h outro complicador para Edinho: quem apareceu em nome dele para fechar os detalhes da "doao", segundo Pessoa, foi Manoel de Arajo Sobrinho, o atual chefe de gabinete do ministro. Em plena atividade eleitoral, Manoel se apresentava aos empresrios como funcionrio da Presidncia da Repblica. Era outro recado elegante para que o alvo da "persuaso" soubesse com quem realmente estava falando. 

LULA E A CONTA SECRETA NO EXTERIOR
     O documento abaixo reproduz a movimentao de uma conta secreta na Sua aberta pelos empreiteiros para pagar propina. Segundo Ricardo Pessoa, foi dela que saram 2,4 milhes de reais que reforaram o caixa da campanha do ex-presidente Lula em 2006  dinheiro desviado dos cofres da Petrobras que chegou ao Brasil em uma operao financeira totalmente clandestina e ilegal. O delator contou que a UTC, a Iesa, a Queiroz Galvo e a Camargo Corra formavam o consrcio que venceu a licitao para construir trs plataformas de petrleo. Como era regra na estatal, um porcentual do contrato era obrigatoriamente reservado para subornos. A conta foi criada para o "pagamento de comissionamentos devidos a agentes pblicos em razo das obras da Petrobras, ou seja, o pagamento de propinas", disse Pessoa. Ela tambm ajuda a dificultar o rastreamento de corruptos e corruptores. Foi dessa fonte clandestina que saiu o dinheiro que ajudou Lula a se reeleger.  
     Para comprovar a existncia da conta secreta, o empreiteiro apresentou ao Ministrio Pblico extratos com as movimentaes. Batizada de "Controle RJ 53 - US$", a planilha registra operaes envolvendo 5 milhes de dlares em pagamentos de propina. Alm de financiar o caixa dois de Lula, a conta sua foi utilizada para pagar os operadores do PT na Petrobras. Entre as movimentaes listadas pelo empreiteiro esto pagamentos ao  ex-gerente de Servios da Petrobras Pedro Barusco, um dos responsveis pela coleta das propinas destinadas ao PT. Os repasses  campanha de Lula foram acertados entre Ricardo Pessoa e o ento tesoureiro petista, Jos de Filippi. Era o prprio empreiteiro que levava os pacotes de dinheiro ao comit da campanha em So Paulo. A entrega, como VEJA revelou em sua edio passada, era cercada de medidas de segurana tpicas de organizaes criminosas. Ao chegar  porta do comit, o empreiteiro dizia a senha "tulipa". Se ele ouvia como resposta a palavra "caneco", seguia direto para a tesouraria. Se confirmados pela Justia, os pagamentos via caixa dois so a primeira prova de que o ex-presidente Lula tambm foi beneficiado diretamente pelo petrolo. 

A PLANILHA DO CAIXA DOIS
     Em sua delao, Ricardo Pessoa disse que distribuir dinheiro para campanhas polticas fazia parte da estratgia de suas empresas para permitir "que a engrenagem andasse perfeitamente, tirando as pedras do caminho e abrindo portas no Congresso, na Cmara e em todos os rgos pblicos". Em 2010, segundo a planilha de doaes apresentada ao Ministrio Pblico pelo empreiteiro, algumas dessas pedras foram removidas com dinheiro do chamado caixa dois. Na lista aparece o nome de quinze candidatos que receberam recursos "por fora", sem registro oficial. O documento  dividido em trs colunas: as doaes "realizadas pela UTC", as doaes "realizadas pela Constran" e "pedido".  justamente nessa ltima coluna que o delator anotou os repasses ilegais. Nela, constam como beneficiados o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o senador do PSDB, Aloysio Nunes. O ministro, segundo o empreiteiro, recebeu 500.000 reais em doaes oficiais (250.000 da UTC e 250.000 da Constran) mais 250.000 reais em dinheiro vivo para a sua campanha ao governo de So Paulo. J o senador recebeu 300.000 reais da UTC e 200.000 reais em dinheiro vivo. 
     Tanto o senador quanto o ministro refutaram as acusaes. Mercadante admite apenas ter recebido as doaes legais. Aloysio Nunes tambm. Alm do senador e do ministro da Casa Civil, destacam-se na relao do caixa dois da UTC o ex-ministro do PMDB Hlio Costa (250.000 reais), que concorria ao governo de Minas Gerais, o ex-tesoureiro petista e atual secretrio de Sade da prefeitura de So Paulo, Jos de Filippi Jnior (150.000 reais), o ex-deputado do PR e mensaleiro Valdemar Costa Neto (200.000 reais), o lder do PP na Cmara Eduardo da Fonte (100.000 reais) e o deputado do DEM Jorge Tadeu Mudalen (200.000 reais). 

A COMPRA DA CPI E OS PARTIDOS-LARANJA
     Quando viajou a Braslia, no ano passado, para se reunir com o ento lder do PTB no Senado, Gim Argello, Ricardo Pessoa estava assustado com a possibilidade de ser convocado para depor na CPI da Petrobras. Encarar os parlamentares no meio das investigaes da Lava-Jato no era uma opo. Antes de aceitar pagar a Gim Argello alguns milhes de reais para impedir a sua convocao, Ricardo Pessoa quis ter a certeza de que o senador, como vice-presidente da comisso, teria mesmo condies de entregar o prometido. Deu-se o seguinte dilogo: 
      Voc garante que no vou ser convocado?  perguntou Pessoa. 
      Garanto!  respondeu Gim. 
      100%?  insistiu Pessoa. 
      100% ningum pode ser.  90%!  prometeu Gim. 
     O acordo foi fechado em 5 milhes de reais. Para camuflar o suborno, o dinheiro foi repassado na forma de doaes eleitorais aos diretrios de quatro partidos controlados pelo senador governista no Distrito Federal  PR, DEM, PRTB e PMN. O empreiteiro entregou aos investigadores uma planilha listando as operaes. A CPI terminou sem apurar nada e sem importunar Ricardo Pessoa. O delator contou que tambm doou 150000 reais  campanha do deputado Jlio Delgado com o mesmo objetivo. O pagamento, segundo ele, foi realizado por intermdio do presidente do PSB de Belo Horizonte. Jlio Delgado nega o acordo e garante que no recebeu nada.

A CONTA-CORRENTE JVN
     O dono da UTC entregou muito dinheiro em espcie nas mos de Joo Vaccari Neto. Precisamente 3,9 milhes de "pixulecos"  como o ex-tesoureiro do PT chamava as propinas que recebia. Os detalhes esto na planilha identificada como "JVN-PT", na qual o empreiteiro registrou as datas e os valores de onze repasses feitos ao tesoureiro entre 2008 e 2013. Ricardo Pessoa contou aos investigadores que comeou a pagar propina a Vaccari depois que a Petrobras iniciou uma srie de grandes investimentos no setor de leo e gs. "A partir da (2007), todas as obras licitadas na Petrobras passaram a representar 'motivo' para novas e grandes contribuies polticas ao PT e ao PP, partidos diretamente ligados s nomeaes das diretorias", informou Pessoa. O delator fez ainda uma anotao de prprio punho que no deixa dvida sobre a natureza do documento: "caixa 2". Ou seja, Vaccari mantinha um caixa dois dentro do caixa dois do PT. 
     A JVN-PT era a conta que o tesoureiro tinha na UTC para bancar suas despesas de varejo. Preso h quase trs meses em Curitiba, Joo Vaccari, o Moch, referncia  sua inseparvel mochila preta, mantinha negcios escusos com vrios empresrios, mas com Ricardo Pessoa as relaes beiravam a camaradagem. O empreiteiro contou que repassou 15 milhes de reais ao tesoureiro. O pagamento foi condio para que a UTC ingressasse no consrcio escolhido pela Petrobras para construir o Complexo Petroqumico do Rio de Janeiro (Comperj). Pessoa narrou aos investigadores que pagava propina ao PT "de modo contnuo", por meio de  doaes oficiais e tambm de repasses clandestinos. Era tanto dinheiro que o delator mantinha em seu computador uma planilha exclusiva para registrar o fluxo dos recursos. Dessa conta-propina tambm saam os "pixulecos" para manter o luxo de alguns dirigentes do partido, como se ver a seguir. 

PROPINA DISFARADA DE CONSULTORIA
     O petista Jos Dirceu ganhou muito dinheiro. Desde que deixou a Casa Civil abatido pelo escndalo do mensalo, em 2005, o ex-ministro recebeu cerca de 39 milhes de reais oficialmente fazendo consultorias para o setor privado. As investigaes da Operao Lava-Jato, no entanto, desvendaram a verdadeira natureza dos servios do mensaleiro. Em sua delao premiada, o empreiteiro Ricardo Pessoa apresenta documentos que mostram que as consultorias nada mais eram do que fachada para o recebimento de dinheiro desviado da Petrobras. O dono da UTC contou aos investigadores que foi procurado pelo ex-ministro em meados de 2012. Dirceu, que exercia forte influncia sobre os diretores da Petrobras, ofereceu ao empreiteiro os seus servios de consultor. Assim como no caso do pedido de Edinho Silva, negar  dinheiro a Dirceu poderia ser sinnimo de problemas. Melhor no arriscar. Afinal de contas, os negcios iam muito bem. O empreiteiro fechou um acordo para pagar 1,4 milho de reais ao mensaleiro. O objeto do contrato: prospectar negcios no exterior. 
     A nica coisa que Jos Dirceu prospectou foram aditivos ao contrato. Sem nenhum tipo de servio prestado, o consultor conseguiu mais 906.000 reais da UTC no ano seguinte. Quando a ltima parcela desse segundo contrato venceu, Dirceu j fazia parte da populao carcerria do presdio da Papuda, em Braslia. Mas nem a priso foi capaz de atrapalhar os negcios do ex-ministro. Ricardo Pessoa contou aos investigadores que, a pedido do prprio Dirceu, assinou um segundo aditivo, de 840.000 reais. O contrato foi firmado quando o mensaleiro j estava no terceiro ms de priso. "Apenas e to somente em razo de se tratar de Jos Dirceu e da sua grande influncia no PT  que, mesmo sabendo da impossibilidade de ele trabalhar no contrato firmado, porque estava preso, o aditamento foi feito e as parcelas continuaram a ser pagas", disse o dono da UTC aos procuradores. O mais impressionante: como a tabela acima comprova, metade do dinheiro pago pela UTC a Dirceu foi debitada com autorizao de Vaccari da conta-corrente que a empreiteira administrava para o PT. Ou seja, o ex-ministro foi pago com propina da Petrobras. 

O HOMEM QUE FABRICAVA DINHEIRO
     Para no deixarem rastros, os criminosos evitam usar o sistema financeiro e recorrem a doleiros e operadores para produzir o combustvel da corrupo: dinheiro vivo. Ricardo Pessoa tinha o seu fornecedor de dinheiro, o empresrio Adir Assad, que est preso h quatro meses. A Polcia Federal j sabe que Assad utilizava suas empresas para "esfriar" dinheiro. Funcionava assim: a UTC simulava a contratao de Assad para justificar a sada de recursos do seu caixa. O empresrio, por sua vez, emitia uma nota fiscal e recebia uma comisso pelo servio que no existia. Pronto, o dinheiro podia ser entregue aos corruptos sem deixar pistas de sua origem. Ricardo Pessoa entregou uma planilha de quatro pginas que demonstra o volume de recursos envolvidos no petrolo. Entre 2007 e 2013, o "fabricante de dinheiro" entregou ao dono da UTC nada menos que 76,6 milhes de reais em dinheiro vivo. A bolada serviu para fazer doaes clandestinas, pagar propinas e outras finalidades nada nobres. Apenas em 2008, ano de eleies municipais, Adir Assad "fabricou" 9,1 milhes de reais para a UTC. As notas fiscais fajutas foram emitidas em nome das empresas SM Terraplenagem e Rock Star. Em 2010, durante as eleies presidenciais, Assad entregou 15 milhes de reais ao empreiteiro. Nessa poca, ainda no havia pagamento de propina disfarado de doaes oficiais. 

OS ACHACADORES (FERNANDO COLLOR, EDISON LOBO E...)
     Empreiteiro que depende do governo, Ricardo Pessoa era um alvo preferencial de polticos e partidos que criam dificuldades para vender facilidades. Como  uma pessoa metdica, os achaques esto detalhadamente descritos em suas agendas e os pagamentos, anotados em planilhas.  desse arquivo que sai a tabela "Controle de compromissos RJ/Norte", o documento que registra os 20 milhes de reais pagos ao senador Fernando Collor (PTB-AL) e a seu operador, o empresrio Pedro Paulo Leoni Ramos. Acertada depois que Collor e seu grupo ajudaram o dono da UTC a fraudar uma licitao de 650 milhes de reais na BR Distribuidora, a propina comea a cair na "conta-corrente" de Collor e "PP", como Pedro Paulo  identificado no documento, em dezembro de 2010. A tabela mostra que os pagamentos mensais se estenderam at julho de 2012. " bom esclarecer que o valor solicitado para que a UTC garantisse a vitria no contrato s foi aceito neste patamar levando-se em considerao quem estava por trs de Pedro Paulo", diz o documento em poder do Ministrio Pblico. 
     Ricardo Pessoa descreve em detalhes outras situaes de achaques oriundos de dois importantes quadros do governo da presidente Dilma Rousseff. Ele contou que, no ano passado, o ento ministro de Minas e Energia, Edison Lobo, recebeu 1 milho de reais apenas para no criar obstculos  UTC na obra de Angra 3. O mesmo procedimento foi adotado com Srgio Machado, ento presidente da Transpetro, que recebeu 1 milho de reais para manter-se sensvel aos pleitos da empresa na Petrobras. A lista de aproveitadores  extensa. 

AS VALIOSAS INFORMAES DO TCU
     Pagar por informaes privilegiadas e influncia em rgos estratgicos era um dos estratagemas do empreiteiro para evitar "pedras no caminho" da UTC. Filho do atual presidente do Tribunal de Contas da Unio (TCU), Aroldo Cedraz, o advogado Tiago Cedraz foi pago para atuar nessa rea. "Tiago foi contratado para buscar, de forma antecipada, informaes no TCU sobre questes e temas em debate que interessassem  empresa", explicou Ricardo Pessoa. Ele contou que, graas ao prestgio do pai no TCU, Tiago transitava pelos gabinetes do tribunal com rara desenvoltura. Tinha condies, portanto, de antecipar resultados de processos e at sensibilizar colegas do pai sobre os interesses da UTC. Por um servio to especial, Tiago Cedraz foi muito bem remunerado, como mostra a relao de pagamentos entregue por Pessoa aos investigadores. Na tabela "Tiago  BSB" esto listadas nada menos do que 25 operaes que, somadas, totalizam 2,2 milhes de reais. S pelo lobby no TCU em defesa da UTC nos contratos de Angra 3, por exemplo, Tiago recebeu um prmio de 1 milho de reais em espcie. A bolada foi paga em 23 de janeiro de 2014  uma parte entregue em Braslia e a outra retirada diretamente na sede da empresa, segundo Ricardo Pessoa. Sem nenhum contrato formal, Tiago Cedraz recebia mensalmente 50.000 reais em dinheiro para obter "informaes de inteligncia" no TCU. O advogado confirma que trabalhou para a UTC, mas nega que tenha atuado na corte presidida pelo pai. 

A CONTA PARTICULAR DO TESOUREIRO DE LULA
O tesoureiro Jos de Filippi Jnior no usava seus talentos apenas para conseguir dinheiro para a campanha do ex-presidente Lula. Ele tambm se valia dos empreiteiros para faturar algum para si. Ricardo Pessoa entregou aos investigadores uma planilha de pagamentos realizados a Filippi Jnior. Os valores e as datas dos repasses esto registrados no arquivo "Filipi Diadema". Segundo o empreiteiro, alm de 150.000 reais "por fora" dados a sua campanha para deputado federal em 2010, o tesoureiro recebeu 750.000 reais entre 2010 e 2014. Para no chamar ateno, ele mandava um taxista buscar os pacotes de dinheiro na sede da UTC. Os pagamentos eram previamente acertados por e-mail. Pessoa explicou por que a UTC deu dinheiro a Filippi: "Jos de Filippi Jnior era a conexo direta com Joo Vaccari, pessoa com alta influncia na Petrobras e tambm junto aos candidatos  Presidncia da Repblica Luiz Incio Lula da Silva e Dilma Rousseff". 


3#2 O QUARTO ELEMENTO
A Justia decreta a priso de mais um ex-diretor da Petrobras acusado de envolvimento nos desfalques contra a estatal.

     A Polcia Federal prendeu o ltimo integrante da chamada "camarilha dos quatro", o quarteto de ex-diretores da Petrobras que participou do roubo de pelo menos 6 bilhes de reais dos cofres da estatal. Por deciso do juiz Srgio Moro, os agentes encarceraram o engenheiro Jorge Zelada, que comandou a rea internacional da companhia entre 2008 e 2012, porque ele tentou esconder as propinas recebidas e, assim, dificultar o rastreamento do dinheiro desviado no petrolo. Segundo o Ministrio Pblico, Zelada, que nunca declarou  Receita Federal ter recursos no exterior, transferiu cerca de 25 milhes de reais de uma conta bancria na Sua para outra em Mnaco, a fim de impedir o bloqueio dos valores. Descoberta pelas autoridades, essa artimanha j havia levado outros corruptos para a cadeia. Disse o procurador Carlos Fernando Lima sobre os ex-diretores enquadrados pela Justia: "Era o ncleo principal das investigaes e falcatruas". 
     Todos os integrantes da camarilha dos quatro foram nomeados pelo ex-presidente Lula. E todos atuaram como operadores da engrenagem criminosa que usou contratos superfaturados da Petrobras para financiar partidos da base governista, com destaque para PT, PMDB e PP. Zelada, por exemplo, foi indicado ao cargo pelos deputados peemedebistas. Sua demisso levou essa bancada a declarar guerra ao governo e  ento presidente da estatal, Maria das Graas Foster. Antecessor dele na rea internacional, Nestor Cerver tambm est preso e j foi condenado a cinco anos de priso por lavagem de dinheiro. Apadrinhado pelos senadores Delcdio Amaral (PT-MS), lder do governo, e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Congresso, Cerver cogita fechar um acordo de delao premiada com os procuradores. A Operao Lava-Jato comeou a esquadrinhar o esquema de corrupo na Petrobras ao chegar ao ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, que negociava "pixulecos" para caciques de PT, PMDB e PP. Chamado carinhosamente de Paulinho por Lula, ele contou s autoridades que as grandes empreiteiras pagavam propina em troca do superfaturamento de contratos  e que o dinheiro abastecia os cofres partidrios. 
     Numa tentativa de reduzir sua pena, Costa passou a colaborar formalmente com as investigaes (veja reportagem na pg. 50). O segundo ex-diretor preso pela PF foi Renato Duque, que comandou a rea de Servios, era apadrinhado pelo mensaleiro Jos Dirceu e foi o principal operador do PT na Petrobras. Numa dobradinha com o ex-tesoureiro  Joo Vaccari Neto, Duque ajudou a financiar campanhas petistas, inclusive  Presidncia da Repblica, com a grana surrupiada. Essa informao consta de depoimentos de outros delatores do petrolo, inclusive de seu subalterno Pedro Barusco, o notrio servidor de terceiro escalo que prometeu devolver 97 milhes de dlares em propinas. Convicta da impunidade, a camarilha perpetrou um golpe bilionrio. Flagrada em plena ao, agora faz o que pode para fugir da cadeia. Mas est difcil. 
ADRIANO CEOLIN


3#3 ELES FIZERAM A CASA CAIR
O que disseram em comum os dezoito delatores da Lava-Jato e por que  falso o argumento de que eles s decidiram revelar o que sabem para sair da priso.
MARIANA BARROS E PIETER ZALIS

     De cada seis rus da Lava-Jato, um j decidiu abrir a boca. Desde o incio das investigaes, h dezesseis meses, a operao que investiga os desvios de verba da Petrobras conseguiu fazer com que a Justia aceitasse denncias contra 114 acusados,  entre empreiteiros, lobistas, doleiros, ex-dirigentes da Petrobras e polticos. Destes, dezoito se transformaram em delatores premiados  ou seja, em acordos assinados com o Ministrio Pblico e homologados pela Justia, prometeram contar tudo o que sabem em troca de reduo da pena pelos crimes que cometeram. O mais recente convertido  o lobista Milton Pascowitch, que atuava em favor da Engevix, uma das empreiteiras favorecidas por obras da Petrobras em troca de propina, conforme apontam as investigaes. Pascowitch admitiu ter pago 1,5 milho de reais ao ex-ministro Jos Dirceu, entre consultorias e "pixulecos" destinados a garantir a presena da empreiteira no esquema do petrolo. 
     VEJA cruzou as informaes dadas at agora pelos dezoito delatores da Lava-Jato para identificar os pontos coincidentes. Aqui, os principais: 
 O esquema do petrolo comeou no governo Lula:  o que disseram os delatores Augusto Mendona, Eduardo Leite, Pedro Barusco, Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef e Ricardo Pessoa. 
 O esquema continuou no governo Dilma: a afirmao aparece nos depoimentos de Pedro Barusco, Paulo Roberto Costa, Ricardo Pessoa, Alberto Youssef e Eduardo Leite. 
 As doaes legais ao PT, PMDB e PP eram pagamento de propina: a revelao foi feita por Augusto Mendona,  Ricardo Pessoa, Eduardo Leite, Alberto Youssef e Pedro Barusco. 
 Joo Vaccari era o interlocutor do PT para tratar do pagamento dos subornos: confirmaram a informao os delatores Ricardo Pessoa, Augusto Mendona, Alberto Youssef, Eduardo Leite e Pedro Barusco. 
 Jos Dirceu manteve consultorias de fachada para tomar dinheiro de empreiteiros:  o que disseram Milton Pascowitch e Ricardo Pessoa. 

     O levantamento mostrou ainda que, dos dezoito rus que decidiram colaborar com as investigaes, apenas seis estavam presos e foram soltos depois de assinar o acordo de delao. Esse resultado contraria o argumento de advogados que acusam os investigadores da Lava-Jato de estar usando as prises preventivas para pressionar os rus a aderir  delao. E refora a ideia de que o que move os delatores  "muito mais o medo do processo e da priso no futuro  do que o encarceramento preventivo", como disse o procurador Carlos Fernando Lima, integrante da Lava-Jato. 
     Nos Estados Unidos, o uso da delao premiada foi fundamental para chegar aos culpados em casos como as fraudes financeiras do gigante de tecnologia Enron e, mais recentemente, para prender acusados no esquema de corrupo da Fifa. No Brasil, a delao s ganhou impulso em 2013, quando alteraes legais aumentaram as garantias de concesso de benefcios aos colaboradores, estimulando as adeses. A lei que alterou a regra original foi assinada por Dilma Rousseff. Na semana passada, a presidente, que chegou a elogiar publicamente a legitimidade e a eficincia do instrumento, declarou que no respeita delatores. Infelizmente, para a presidente, a recproca tambm  verdadeira  como deixou claro o delator Ricardo Pessoa ao revelar que a contribuio "voluntria" e "legal" que deu  campanha de Dilma em 2014 foi, na verdade, fruto de achaque. 

Para obter as provas, a Justia e o Ministrio Pblico valeram-se da delao premiada, um mtodo legtimo, previsto em lei. E muito til para desmontar esquemas de corrupo - Em 20 de outubro de 2014, ao comentar as primeiras delaes da Lava-Jato.

Eu no respeito delator, at porque estive presa na ditadura militar e sei o que  - Em 29 de junho de 2015, sobre a delao-bomba de Ricardo Pessoa.

OS DELATORES DA LAVA-JATO
Dos dezoito rus que resolveram contar o que sabem, apenas seis estavam presos quando firmaram o acordo de delao

MILTON PASCOWITCH  Lobista da Engevix
Data do acordo  junho/2015
Papel no esquema  Foi contratado pela Engevix para aproxim-lo do PT e da Petrobras. Fez isso com pagamento de propinas.
Principais revelaes  Disse ter pago 1,5 milho de reais entre consultorias e propinas a Jos Dirceu, que fazia pedidos insistentes
Situao quando assinou a delao  PRESO

JULIO FAERMAN  Lobista da SBM
Data do acordo  junho/2015
Papel no esquema  Intermediou propinas de pelo menos 30 milhes de dlares para funcionrios da Petrobras, como Barusco
Principais revelaes  O contedo de sua delao ainda no foi tornado pblico
Situao quando assinou a delao  SOLTO

RICARDO PESSOA  Presidente da UTC
Data do acordo  maio/2015
Papel no esquema  Chefe do clube dos empreiteiros, pagava propina para fechar negcios com empresas e rgos pblicos
Principais revelaes  Contou ter sido achacado para dar 7,5 milhes de reais  campanha de reeleio de Dilma e citou Jos Dirceu
Situao quando assinou a delao  SOLTO

EDUARDO HERMELINO LEITE  Ex-vice-presidente da Camargo Corra
Data do acordo  fevereiro/2015
Papel no esquema  Pagava propinas para fechar negcios com a estatal
Principais revelaes  Admitiu ter pago 110 milhes de reais em propinas, inclusive ao PT, intermediadas por Vaccari
Situao quando assinou a delao  PRESO

DALTON DOS SANTOS AVANCINI  Ex-presidente da Camargo Corra
Data do acordo  fevereiro/2015
Papel no esquema  Pagava propinas para fechar negcios com a estatal
Principais revelaes  Detalhou a existncia de outros clubes de empreiteiras para superfaturar as obras da ferrovia Norte-Sul e de Angra 3
Situao quando assinou a delao  PRESO

SHINKO NAKANDAKARI  Ex-diretor da Odebrecht
Data do acordo  fevereiro 2015
Papel no esquema  Pagava as propinas da Galvo Engenharia  Petrobras
Principais revelaes  Disse que pagou propinas a Duque, Barusco e Glauco Legatti, ex-gerente da Refinaria do Nordeste, at o ano passado
Situao quando assinou a delao  SOLTO

RAFAEL NGULO LOPEZ  Brao-direito de Youssef
Data do acordo  dezembro/2014
Papel no esquema  Era o distribuidor da propina. Fazia entregas de dinheiro em domiclio, o "money delivery" do petrolo
Principais revelaes  Disse que entregou dinheiro a Fernando Collor, Joo Vaccari Neto, Roseana Sarney e ministros de Dilma
Situao quando assinou a delao  SOLTO

AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO  Executivo da Toyo Setal
Data do acordo  novembro/2014
Papel no esquema  Distribua propinas combinadas com Renato Duque, para fechar negcios com a Petrobras
Principais revelaes  Admitiu que, entre 2008 e 2011, repassou 4 milhes de reais ao PT, de um total de 150 milhes que pagou de propina
Situao quando assinou a delao  SOLTO

PEDRO BARUSCO FILHO  Ex-gerente da Petrobras
Data do acordo  novembro/2014
Papel no esquema  Brao-direito do ex-diretor Duque, tinha conta na Sua que servia como central de distribuio das propinas
Principais revelaes  Disse que Joo Vaccari Neto, do PT, arrecadou 200 milhes de dlares em propinas para o partido
Situao quando assinou a delao  SOLTO

JULIO CAMARGO  Executivo da Toyo Setal
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Era um dos intermedirios na distribuio de propina para partidos e envolvidos no esquema
Principais revelaes  Afirmou que "a regra era 1%" de propina para obter contratos. Confirmou ter dado dinheiro a Duque e a Barusco
Situao quando assinou a delao  SOLTO

HUMBERTO SAMPAIO DE MESQUITA  Genro de Paulo Roberto Costa
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Mantinha contas no exterior destinadas a receber propinas e era scio em contratos com a Petrobras
Principais revelaes  Detalhou como funcionava o esquema que envolvia a  famlia de seu sogro
Situao quando assinou a delao  SOLTO

MRCIO LEWKOWICZ  Genro de Paulo Roberto da Costa
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Administrava propinas recebidas em contratos de construo de obras para a Petrobras
Principais revelaes  Detalhou como funcionava o esquema que envolvia a famlia de seu sogro
Situao quando assinou a delao  SOLTO

ADRIANNA AZEVEDO BACHMANN  Filho de Paulo Roberto da Costa
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Casada com Lewkowicz, recebia comisses por intermediar negcios com empreiteiras
Principais revelaes  Detalhou como funcionava o esquema que envolvia a sua famlia
Situao quando assinou a delao  SOLTA

SHANNI AZEVEDO COSTA BACHMANN  Filha de Paulo Roberto Costa
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Casada com Mesquita, movimentava contas no exterior para as quais era enviado o dinheiro de propina
Principais revelaes  Detalhou como funcionava o esquema que envolvia a sua famlia
Situao quando assinou a delao  SOLTA

MARICI DA SILVA AZEVEDO COSTA  Mulher de Paulo Roberto da Costa
Data do acordo  outubro/2014
Papel no esquema  Atuou como laranja em empresas e contas mantidas pelo marido
Principais revelaes  Detalhou como funcionava o esquema que envolvia a sua famlia
Situao quando assinou a delao  SOLTA

ALBERTO YOUSSEF - Doleiro
Data do acordo  setembro/2014
Papel no esquema  Intermediou contratos entre rgos pblicos e grandes empreiteiras e fazia o pagamento de propina
Principais revelaes  Contou que a campanha do PT de 2010 recebeu dinheiro desviado da Petrobras e listou 28 parlamentares que recebiam propina
Situao quando assinou a delao  PRESO

LUCCAS PACE JR.  Operador de cmbio, ligado  doleira Nelma Kodama
Data do acordo  setembro/2014
Papel no esquema  Brao-direito de Nelma Kodama, amante de Youssef, investigada no incio da Lava-Jato
Principais revelaes  Disse que movimentava 300.000 dlares por dia num esquema lateral ao petrolo, envolvendo a doleira Nelma
Situao quando assinou a delao  PRESO

PAULO ROBERTO COSTA  Ex-diretor da Petrobras
Data do acordo  agosto/2014
Papel no esquema  Um dos operadores da organizao criminosa, dentro da estatal. Acertava  superfaturamento e as propinas
Principais revelaes  Apresentou uma lista de polticos envolvidos. Tambm contou que a campanha de Dilma em 2010 pediu recursos ao esquema
Situao quando assinou a delao  PRESO


3#4 ELE DOMINA AS REGRAS DO JOGO
Pela segunda vez, Eduardo Cunha repete uma votao para reverter uma derrota e mostra sua ousadia ao explorar os atalhos do regimento da Cmara.
GABRIEL CASTRO E SILVIO NAVARRO

     Era 0h35 da ltima quarta-feira quando os grupos contrrios  reduo da maioridade penal comemoraram, na Cmara dos Deputados, uma vitria com sabor especial. A emenda  Constituio que previa a punio a partir dos 16 anos para crimes graves  uma expresso que abarcava desde o homicdio at o terrorismo  obtivera o apoio de 303 parlamentares, cinco a menos do que o necessrio. Deputados do PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL se abraaram. Nas galerias da Cmara, militantes de partidos de esquerda zombavam do presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que havia retirado os projetos sobre o tema da gaveta onde dormiam havia dcadas para lev-los a votao, empenhando-se como ningum para que fossem aprovados. Passaram-se 24 horas.  0h53 de quinta-feira, no mesmo cenrio, com os mesmos personagens, ocorria o desfecho oposto. Quem comemorava eram os defensores da reduo da maioridade penal. Nesse intervalo, Cunha mostrou mais uma vez as caractersticas que fazem dele um personagem singular na histria poltica recente. Ele reuniu seus correligionrios e iniciou uma operao para reformatar a proposta, de modo que deputados que a haviam rejeitado no dia anterior pudessem mudar de ideia. Saram do texto a punio de adolescentes presos por trfico de drogas e roubo, alm de menes a tortura e terrorismo. Ao perceber que tinha os votos necessrios, Cunha decidiu levar a questo a plenrio novamente, amparado num artigo do regimento da Cmara que no tem interpretao unvoca  uma manobra que muitos consideraram autoritria, e que deve ser questionada na Justia. Como j havia feito na votao das novas regras de financiamento de campanha eleitoral, em maio, ele combinou ousadia, obstinao e conhecimento das regras do jogo para expor mais uma vez a fragilidade do governo na articulao poltica, ditar a agenda pblica e projetar a prpria liderana. 
     A articulao de Cunha comeou instantes depois do revs, enquanto seus adversrios participavam de uma roda de samba improvisada em frente ao Congresso Nacional. Ele j dispunha de um plano B: como o projeto rejeitado era um substitutivo, o artigo 191 do regimento da Cmara permitia que a proposta original e suas emendas fossem retomadas. Mas sabia que a votao imediata causaria questionamentos, e seu primeiro impulso era aguardar para voltar  carga. Assessores, no entanto, encontraram precedentes para a manobra em votaes antigas  em 2007, numa minirreforma eleitoral, e em 1996, com alteraes na Previdncia Social. Alm disso, aliados argumentaram que, se o assunto esfriasse, a derrota poderia se consolidar. Foi o momento da ousadia. Cunha cobrou fidelidade: "No posso ficar sozinho nessa porque certamente vo dizer que estou atropelando". 
     Na manh seguinte, seus mosqueteiros Andr Moura (PSC-SE), Rogrio Rosso (PSD-DF), Mendona Filho (DEM-PE), Nilson Leito (PSDB-MT), Leonardo Picciani (PMDB-RJ), Maurcio Quintella Lessa (PR-AL) e Eduardo da Fonte (PP-PE) comearam um corpo a corpo nas suas bancadas e, principalmente, com parlamentares que teriam de ser convencidos a mudar de voto. A deputada tucana Mara Gabrilli (SP) era uma das que haviam composto o placar desfavorvel na quarta-feira. "Foi um entra e sai no meu gabinete. Eles perguntavam: 'Se tirar isso, voc vota?'", diz ela. O progressivo abrandamento do texto a convenceu a mudar de lado depois de conversar com seu grupo poltico. Uma ligao para o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, mostrou que o novo formato da proposta atingiria apenas 3,5% dos infratores atualmente internados no Estado. "Senti que participei da construo de um projeto mais palatvel", justifica a tucana. Era um sentimento comum entre os 24 deputados convencidos a rever seu voto em favor da reduo. 
     Como previsto, quando a volta do assunto  pauta foi anunciada, parlamentares do PT, PDT, PCdoB e PSOL questionaram duramente a legitimidade da segunda votao, empunhando o artigo 60 da Constituio e alegando que a matria s poderia voltar a debate "na prxima sesso legislativa", ou seja, em 2016. Mas Cunha pisou no acelerador e at deixou escapar um sorriso ao anunciar o novo placar. "O apoio ao governo tem o mesmo tamanho do apoio  manuteno da idade penal", disse depois da vitria, referindo-se s pesquisas de opinio que mostram quase 90% de aval  diminuio da idade penal e aprovao de apenas 9%  Presidncia de Dilma Rousseff. Deputados governistas, o Planalto e a OAB anunciavam que o Supremo Tribunal Federal seria acionado, assim como ocorreu no caso da votao sobre financiamento de campanha. "No h dvida de que Cunha lanou mo de uma medida pouco usual no dia a dia do Congresso", afirma Srgio Praa, da Escola de Cincias Sociais da FGV-RJ. "Na minha opinio, os projetos votados em sequncia so diferentes o suficiente para legitimar a manobra, mas  claro que o STF pode discordar."  
     A votao da semana passada fechou um semestre triunfal para Cunha. "No h registro de um presidente da Cmara que enfrente o Planalto como ele. Talvez s Ibsen Pinheiro se aproxime", diz o historiador Marco Antonio Villa, em referncia ao deputado gacho que comandou o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello, no incio da dcada de 1990. A sombra que paira sobre o presidente da Cmara  a meno ao seu nome nas investigaes da Operao Lava-Jato, que ele chama de absurda. O STF autorizou em maro a abertura de inqurito contra ele. As investigaes prosseguem. 
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4# ECONOMIA 8.7.15

     4#1 POR QUE O BRASIL NO  A GRCIA
     4#2 LULA PERDEU AS RUAS

4#1 	POR QUE O BRASIL NO  A GRCIA
A austeridade pode at ser dolorosa, mas ela  a consequncia  e no a causa  da crise. Sem ela, o pas quebra. No para os radicais do governo grego, que evitaram o ajuste e empurraram o pas para o calote da dvida.
GIULIANO GUANDALINI

     No final, no houve acordo. A Grcia deixou de pagar, na semana passada, uma parcela de 1,5 bilho de euros devida ao Fundo Monetrio Internacional. Foi o maior calote sofrido pelo FMI em seus setenta anos, o primeiro de um pas pertencente ao grupo dos mais avanados do mundo. O governo grego acreditava que, sob a ameaa de o pas abandonar a zona do euro, conseguiria obter de seus credores europeus concesses no programa de reformas e ajustes destinados a reequilibrar as contas pblicas. O primeiro-ministro Alexis Tsipras, do Syriza (Coalizo da Esquerda Radical), desejava, em suma, manter o euro e se beneficiar das instituies europeias, mas sem respeitar as regras de estabilidade monetria. Esperava, ao menos, obter uma carncia provisria. Em vo. O futuro das negociaes depender agora do resultado do plebiscito convocado pelo governo para saber se a populao d seu apoio ou no aos pontos centrais das exigncias estipuladas pelo novo acordo emergncial oferecido pelos credores. 
     Sem as linhas de financiamento europeias, a Grcia entrou agora em uma nova fase de sua crise, com cenas e lances vistos na Argentina, depois do calote de 2001, e tambm em outros  pases latino-americanos em crise, entre eles o Brasil de um passado no muito longnquo. A fuga de capitais e a retirada macia de depsitos obrigaram o governo a manter os bancos fechados at que volte a receber o respaldo do Banco Central Europeu. Os saques, desde a semana passada, esto restritos a 60 euros por dia. O caos financeiro resultou em filas e filas de pessoas que tentam sacar dinheiro nos caixas eletrnicos, aposentados que se acotovelam para entrar nas agncias e receber sua penso, gente que corre a supermercados e lojas para comprar carros ou qualquer tipo de mercadoria que possa preservar o valor dos recursos no cenrio de uma desvalorizao monetria. O controle na movimentao de capitais deixou ainda mais difcil o dia a dia do comrcio e das empresas.  o ambiente tpico de uma economia em frangalhos, e no de um pas integrante do bloco econmico mais rico do planeta. 
     A economia brasileira tambm passa por apuros, e muitos se perguntam se a situao poder descambar ao modo grego. A resposta, ao menos por enquanto,  no. Apesar dos erros e dos desmandos da poltica econmica nos ltimos anos, sobretudo no que diz respeito s finanas pblicas, o retrocesso no chegou a ser profundo a ponto de expor o Brasil a uma crise de insolvncia. Acima de tudo, o pas conta como uma confortvel reserva internacional em moeda forte superior a 370 bilhes de dlares, uma quantia suficiente para cobrir todos os pagamentos com os credores externos. A falta de dlares para financiar os credores internacionais sempre foi, historicamente, a maior vulnerabilidade brasileira, e dela o pas est livre. A fase de estripulias e manobras contbeis nas contas do governo parece tambm ter ficado para trs, depois da substituio da equipe econmica. Outra diferena em relao  Grcia  que o Brasil tem moeda prpria e flexvel, o que contribui para ajustar a economia. Se o setor interno vai mal, o dlar sobe, favorecendo as exportaes e reduzindo as importaes. Os gregos, presos ao euro, no contam com essa vlvula de escape. 
     O Brasil, portanto, no est prestes a quebrar. Isso no quer dizer que tudo vai bem. Muito pelo contrrio. Existem semelhanas desconfortveis com a Grcia. A dvida pblica brasileira em relao ao PIB no  to grande quanto a dos gregos, por exemplo. Mas, como as taxas de juros pagas pelo governo para se financiar so muito superiores s pagas pelos gregos, a despesa anual com juros aqui  maior do que na Grcia (veja o quadro na pg. 57). No ano passado, o dficit no oramento pblico brasileiro ficou bem acima do grego. Em outro aspecto preocupante, o gasto previdencirio do Brasil, um pas ainda jovem,  semelhante ao da Grcia, pas que tem um dos sistemas mais generosos  e caros  do mundo. A reforma da Previdncia  justamente uma das reformas cobradas pelos credores. 
     Para o Brasil, assim como no caso da Grcia, s resta a austeridade. Depois de anos de esbrnia fiscal, aumento de gastos acima das receitas e ampliao do endividamento, no h outra opo seno trazer as finanas pblicas  realidade das limitaes materiais. O ajuste, certamente,  doloroso. No pas europeu, ele representou, at aqui, uma diminuio de 40% no valor mdio das aposentadorias e um corte de 22% no salrio mnimo. Foram ajustes drsticos feitos numa economia em recesso profunda, que sofreu uma queda de 25% em seu PIB desde 2009 e na qual a taxa de desemprego permanece h anos acima dos 20%. Com tamanho drama social, a populao acabou se voltando contra os acordos assinados com os credores, apesar de os gregos, majoritariamente, desejarem permanecer fazendo parte da zona do euro. O discurso populista, entretanto, confunde maliciosamente causas com consequncias. A austeridade na Grcia foi necessria porque o pas estava em crise, e no foi a austeridade que causou a crise. No paralelo brasileiro, o arrocho defendido pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy precisa ser feito para evitar uma piora na economia. Sem ele, o Brasil corre o srio risco de perder o grau de investimento, o atestado concedido por agncias de avaliao de risco aos pases considerados mais seguros para o investimento. Sem ajustes, o Brasil certamente seria rebaixado. 
     Os planos de ajuste econmico e reformas podem ser menos traumticos quando so bem executados, breves e levam ao aumento do potencial de crescimento. A Irlanda e a Espanha tambm sofreram durante a crise e precisaram de ajuda externa, mas agiram rapidamente para atacar as fragilidades e j esto em recuperao. A maior dificuldade da Grcia  justamente a falta de  crescimento, entre outros motivos, porque as reformas ficaram pela metade. O acordo assinado com os credores estimava uma arrecadao de 50 bilhes de euros com privatizaes, mas at agora s foram coletados 3,2 bilhes. Sem reformas para diminuir o custo do governo e atrair investimentos privados, as perspectivas para a economia grega so temerrias, mesmo com o perdo parcial da dvida. Segundo o FMI, o potencial de crescimento no longo prazo no consegue avanar muito alm de 1% ao ano. Trata-se de mais uma desconfortvel semelhana com o Brasil. 

DUAS ECONOMIAS EM APUROS
O Brasil no est  beira do colapso, mas, em diversos aspectos, os desafios para as finanas pblicas so semelhantes aos da Grcia.
PIB per capita (em dlares): BRASIL 12.000; GRCIA 22.000
Variao do PIB (2014): BRASIL 0,1%; GRCIA 0,8%
Gastos do setor pblico (em % do PIB): BRASIL 40%; GRCIA 46%
Dvida pblica (em % do PIB): BRASIL 65%; GRCIA 177%
Dficit no oramento pblico (2014, em % do PIB): BRASIL 6,2%; GRCIA 2,7%
Gasto com juros da dvida (2014, em % do PIB): BRASIL 5,6%; GRCIA 4,3%
Gasto previdencirio (2012, em % do PIB): BRASIL 12%; GRCIA 13%
Reservas internacionais (em dlares): BRASIL 372 bilhes; GRCIA 6 bilhes

A QUEM OS GREGOS DEVEM
60% Zona do euro
10% Fundo Monetrio Internacional (FMI)
6% Banco Central Europeu (BCE)
3% Bancos gregos
1% Bancos estrangeiros
1% Banco da Grcia
19% Outros ttulos e emprstimos
DVIDA TOTAL (em euros) 324 bilhes

OS EUROPEUS DO O TROCO
     Encurralado, o primeiro-ministro Alexis Tsipras e seu partido, o Syriza (Coalizo da Esquerda Radical, na sigla em grego), decidiram convocar um plebiscito para domingo 5. Imaginaram, assim, dar um xeque nos credores europeus. Mas foram os gregos que acabaram recebendo um xeque. A Europa sustou provisoriamente a ajuda  Grcia e s retomar as negociaes depois do resultado da votao. A populao decidir se aprova ou no o plano de ajuste econmico apresentado pela chamada troica, o comit de credores representado pela Comisso Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetrio Internacional. Tsipras acreditou que, ao convocar o plebiscito, levaria os credores, liderados pela Alemanha, a ceder. Perdeu mais uma, e tentou transformar a derrota em vitria. "O referendo fortalecer a nossa posio para quando as negociaes forem retomadas", disse Tsipras pelo Twitter. "Quanto mais pessoas votarem 'no', mais forte ser a nossa posio." Em uma entrevista  TV estatal, afirmou ainda: "Eles no podem nos expulsar da zona do euro, porque o custo seria imenso". 
     O presidente da Comisso Europeia, Jean-Claude Juncker, rebateu o primeiro-ministro grego e defendeu o voto no "sim". Ele se disse frustrado com o fracasso nas conversas, "depois de tanto esforo" empregado nos ltimos meses: "Sinto-me trado, porque todo o nosso empenho, e o de outras instituies envolvidas nas conversas, nunca foi devidamente levado em considerao". Tsipras voltou  carga: "As sereias da destruio esto chantageando vocs a votar pelo 'sim', sem que com isso exista qualquer perspectiva de fim da crise". 


4#2 LULA PERDEU AS RUAS
Aos 80 anos, o mineiro Francisco Dornelles (PP-RJ)  um dos homens pblicos h mais tempo em atividade no pas e um dos mais ouvidos pela classe poltica. Apesar da experincia de cinco dcadas, perodo em que ocupou ministrios em trs governos, poucas vezes ele assistiu a crise to profunda. Os ltimos meses tm sido especialmente difceis. Dornelles v seu partido, o PP, desmoronar sob os holofotes, com 32 integrantes enredados no escndalo do petrolo. "Partido poltico  como um buque: tem rosa, cravo e flor de cemitrio", compara o ex-senador, atual vice-governador do Rio de Janeiro. Nesta entrevista a VEJA, ele condena as prticas dos colegas de sigla, aponta equvocos no governo petista, de quem o PP  aliado, e pensa o Brasil. Faz ainda uma revelao surpreendente para quem  sobrinho de Tancredo Neves: se a eleio presidencial fosse hoje, seu candidato seria o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e no o primo Acio Neves. "Mas deixa 2018 chegar", diz.
THIAGO PRADO

OS EQUVOCOS DE DILMA  Acho a presidente sria e compreendo a complexidade de governar um pas como o Brasil, mas ela precisa entender que errou muito e  tambm responsvel pelo que est acontecendo. Olhe as pedaladas fiscais que fez para acobertar o dficit pblico. No se pode entregar um resultado negativo e dizer que  positivo. E no setor do petrleo? Abandonar o sistema de concesso e adotar o regime de partilha  quase reestatizar a explorao, um retrocesso enorme. Na minha opinio, o caminho deveria ser justamente o oposto: privatizar setores como refinarias e at a BR Distribuidora em prol da eficincia. Dilma centraliza demais as decises. Esses so equvocos que nos levaram a uma das maiores crises financeiras que j presenciei na histria brasileira. 

LEGADO NULO  Este governo no tem uma marca, coisa que todos os grandes estadistas, entre erros e acertos, deixaram. Getlio Vargas atrelou-se s polticas sociais. Juscelino Kubitschek sacudiu o Brasil na rea de infraestrutura. Tancredo Neves pretendia unir o pas na transio para o Estado democrtico de direito. FHC chamou a sociedade para a luta contra a inflao. E Dilma? O grande encanto dos governos do PT era a gerao de empregos, que s desacelera. Sinto a presidente acuada. A nica sada seria selar um grande entendimento nacional, convocando bons quadros para pensar e apontar os rumos. 

LULA EM BAIXA  Se a eleio presidencial fosse hoje, Lula no disputaria. O PT ficou muito enfraquecido. A fortaleza de Lula sempre esteve nas ruas, e elas, neste momento, no esto com ele. Acho perigoso o discurso que propaga, dividindo o pas entre pobres e ricos, Norte e Sul, patriotas e vendidos. Temos de aprender a fazer poltica sria, que  a arte de divergir e conciliar a toda hora. Mas no  fcil algum morrer na poltica brasileira, no. Ela tem um alto grau de imprevisibilidade. Aqui, um ano  um sculo. E ainda faltam trs para 2018. 

O FATOR CUNHA  Na poltica no existe vazio que no seja logo ocupado. Quando o Executivo deu sinais de fraqueza, o PMDB sentiu o vcuo e se posicionou na mesma hora. O Eduardo Cunha (presidente da Cmara dos Deputados)  extremamente inteligente, homem de dormir duas horas por noite, obstinado. Ele est indo muito bem, mostrando que no vai aceitar apenas chancelar ordens do Planalto. Onde houver espao, vai entrar e ditar a sua agenda. 

ESTADO GIGANTE  O governo j fica com a maior parte dos lucros das empresas e quer mais. O PT vira e mexe sinaliza algum interesse em taxar as maiores fortunas, por exemplo. Acho uma burrice completa. J h o imposto de renda cobrado pela Unio e outro sobre o patrimnio, arrecadado pelos municpios.  a marcha para a insensatez, o tipo de especulao que s aumenta a instabilidade. 

PP NO PETROLO  Nossa posio  delicada, e o PP est abalado. Mas costumo dizer que partido poltico  como um buque: tem rosa, cravo e flor de cemitrio. H pessoas no PP pelas quais eu ponho a mo no fogo; por outras talvez no. Quando Severino Cavalcanti ganhou a eleio para a presidncia da Cmara dos Deputados, em 2005, o PP reivindicou uma diretoria na Petrobras. A, gente do prprio governo federal sugeriu que o partido apadrinhasse Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento e delator do esquema na estatal). O Jos Janene (ento lder do partido na Cmara, morto em 2010) topou. Alis, quando eu era ministro do Trabalho de FHC, o Janene me indicou trs conhecidos, que tive de afastar, um depois do outro, porque estavam vendendo facilidades. O quarto acabou preso pela polcia. Este nasceu assim, irresponsvel. No caso da Petrobras, os desdobramentos foram inacreditveis. S espero que no haja clemncia com ningum na Operao Lava-Jato. Quem tem culpa precisa pagar. 

PT NO PETROLO  o PT foi o responsvel pelos desmandos e desvios  revelados pela Lava-Jato. No poder pblico, a poltica indica quadros, mas a administrao pode demitir em nome da eficincia. Se tiver de pr algum no olho da rua, que faa isso sem dar satisfao. Claramente faltou comando na Petrobras. Ser possvel que as pessoas ali no viam nada do que se passava? Afinal, no roubaram um cacho de bananas da empresa, mas milhes e milhes de dlares. 

RIO EM CRISE  A situao do Rio de Janeiro  extremamente difcil. O estado registra um dficit de 13 bilhes de reais por ano. A grande fonte de arrecadao de ICMS vinha do petrleo, mas a indstria parou. Prevamos royalties com o barril a 100 dlares. Esse preo caiu  metade. A conjuntura internacional tambm contribuiu para o desaquecimento da economia. Em paralelo, h um recrudescimento da violncia. As quadrilhas esto testando o flego do governo. Elas querem saber at onde o poder pblico vai endurecer no combate ao crime. De um lado, os marginais radicalizam, atingindo mulheres e crianas em aes de visibilidade; de outro, a polcia comete erros, alvejando inocentes com balas perdidas no meio dessa guerra. O fato  que o caminho das Unidades de Polcia Pacificadora no tem volta. 

CABRAL, O DESCUIDADO  o ex-governador Srgio Cabral  extrovertido, gosta de vida social, tinha prestgio e fez o melhor governo que o Rio j teve, mas no se preocupou com a forma de conduzir as coisas. No quero usar aqui a expresso deslumbramento com o poder. Diria que ele se descuidou em algum grau dos atos litrgicos da administrao. Mas, se quiser, ser o candidato do PMDB a prefeito do Rio em 2016. Uniria a todos e no teria adversrios. Nunca falou abertamente disso, mas, na minha opinio, ele quer, sim.
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5# INTERNACIONAL 8.7.15

     5#1 UMA VIDA DE COMUNISTA
     5#2 EM BUSCA DE UMA MO AMIGA

5#1 UMA VIDA DE COMUNISTA
Enquanto os cubanos comuns so obrigados a viver com um salrio mdio de 20 dlares, Antonio, um dos filhos do ditador Fidel Castro, exibe o fausto reservado  famlia.
LEONARDO COUTINHO

     O comunismo  um sucesso em Cuba, desde que o cidado pertena ao cl dos Castro, os donos do pas. Fidel, o patriarca,  proprietrio de uma ilha da fantasia ao sul da ilha-priso onde a populao enfrenta a realidade dos racionamentos de comida, os  apages, a doutrinao comunista vendida ao mundo como educao de qualidade e o sistema de sade de padro subsaariano, com algumas clnicas reservadas a quem paga em dlar e  cpula do regime. A ditadura dos Castro espiona os lares, grampeia os poucos telefones, probe a imprensa livre e prende manifestantes. A ilha de Cayo Piedra, onde Fidel passa a maior parte do seu tempo e onde os cubanos no podem entrar, no sul do mar de Cuba, seria o laboratrio perfeito para o francs Thomas Piketty estudar os extremos da desigualdade e da concentrao de renda. A diferena de qualidade de vida dos Castro em comparao com a da ral, da turba, da plebe cubana  muito maior do que a que existia entre a corte de Lus XVI e o povo francs. Os Castro vivem em manses, vestem-se com os melhores estilistas europeus (Fidel encomenda suas botas na Itlia) e locomovem-se pas afora em seus jatos particulares. 
     Numa ditadura em que os pescadores so proibidos de usar barcos, para evitar que fujam, Antonio Castro  o quarto dos cinco filhos oficiais de Fidel  alugou um iate de 45 metros, que vale 9 milhes de euros, para atravessar o Mar Egeu, entre a Grcia e a Turquia. Ele hospedou-se no idlico Kuum Hotel, localizado no balnerio turco de Bodrum, onde sua comitiva de doze pessoas ocupou cinco sutes, cuja diria custa 1100 dlares. Um cubano mdio precisaria economizar cinco anos de salrios para bancar apenas um dia nesse paraso helnico, onde nasceu o historiador Herdoto (484 a.C. a 425 a.C.). Antonio foi fotografado no deque do resort na companhia de amigos, com os quais depois jantou em um restaurante com vista para o Castelo de So Pedro de Halicarnasso. Flagrado por jornalistas, ele se escondeu no interior do estabelecimento, enquanto seus guarda-costas ameaavam os fotgrafos. Um deles chegou a ser esmurrado por um militar cubano. 
     Conhecido como o prncipe de Havana, Antonio  o filho preferido do ditador e o que menos se preocupa com o fato de ostentar um estilo de vida diametralmente oposto ao da indigncia de seus compatriotas. Mdico, ele jamais ps o p na lama como fazem os que o pai explora exportando para outros pases, inclusive para o Brasil. Tony, como  chamado por Fidel,  presidente da Confederao Cubana de Beisebol e possui o cargo de "embaixador global" junto  confederao internacional do esporte. Ele tambm viaja em grande estilo pelo mundo para disputar torneios de golfe  esporte que o ditador baniu do pas sob a alegao de ser uma diverso burguesa. O golfe voltou a ser praticado nos anos 90, mas s por turistas. Quando est em Cuba, Antonio desfruta a privacidade da ilha do pai, Cayo Piedra. L, ele pratica pesca subaqutica e tem  sua disposio uma manso e dezenas de empregados. Mas os Castro so ingratos. No h notcia de que Frei Betto e Chico Buarque tenham sido convidados para o passeio. Aos brasileiros que defendem o regime  oferecida a sua outra ilha: a da iluso comunista, em que igualdade significa pobreza para todos. 

NORMALIDADE E REPRESSO
     Na semana passada, o governo americano anunciou a retomada das relaes diplomticas entre Washington e Havana aps cinco dcadas de interrupo. Em vez de euforia, a reabertura das embaixadas, prevista para 20 de julho, provoca preocupao entre os cubanos. Eles temem que a normalidade diplomtica encerre os benefcios de residncia e emprego aos imigrantes que chegam aos Estados Unidos sem visto. A poltica de "ps secos, ps molhados" em vigor estabelece que qualquer cubano que consiga pisar em solo americano ganhe imediatamente asilo; aqueles que so interceptados no mar, porm, so devolvidos  ilha. A possibilidade de que isso acabe fez o nmero de emigrantes cubanos no primeiro semestre de 2015 dobrar em relao ao mesmo perodo de 2014. Nos ltimos nove meses, quase 3000 cubanos foram interceptados em botes improvisados, tentando chegar  Flrida. 
     A retomada diplomtica est sendo acompanhada de um aumento na represso em Cuba. No domingo 28, mais de 220 dissidentes foram presos em Havana, Cienfuegos e Santiago de Cuba. Na capital, mulheres que participam do grupo Damas de Branco foram sitiadas e presas ao sair de casa. Elas vo  missa aos domingos vestidas de branco em protesto contra a deteno de parentes por motivos polticos. As medidas que pretendiam mostrar abertura so ilusrias. O governo aumentou a cobertura de internet no pas, mas ainda h mais pontos pblicos de wi-fi em Sobral, no Cear, do que em toda Cuba. Alm disso, muitas pginas so bloqueadas. Apenas 2% dos cubanos j viram uma pgina da web. O presidente americano Barack Obama no menciona a inteno de levar democracia  ilha, o que  prudente. Seu objetivo parece ser simplesmente afastar da pauta das relaes com a Amrica Latina um tema que apenas servia de desculpa para o discurso antiamericano. H o risco de que no consiga nem uma coisa nem outra e, de quebra, acabe criando condies para perpetuar a ditadura cubana. 


5#2 EM BUSCA DE UMA MO AMIGA
Na falta de boas notcias domsticas, Dilma Rousseff foi aos Estados Unidos. O resultado prtico da visita  pfio.

     Ao embarcar para os Estados Unidos para uma visita de cinco dias, Dilma Rousseff esperava deixar em casa a crise poltica e econmica e a mais baixa popularidade de um presidente brasileiro desde Jos Sarney: apenas 9%. Em Washington, onde se reuniu duas vezes com o presidente americano Barack Obama, encontrou o avesso de si. Obama, com 50% de aprovao popular, estava radiante. Num intervalo de sete dias, a Suprema Corte salvou seu plano de sade universal, o Obamacare, e aprovou o casamento gay, uma causa na qual ele pegou carona nos ltimos anos. Alm disso, o nvel de desemprego americano caiu para 5,3%, o mais baixo em sete anos. No Brasil, o indicador  o mais alto em quase cinco, 6,7%. A distncia entre os dois presidentes no era to grande dois anos atrs, quando Dilma cancelou uma visita de Estado a Washington por causa da revelao de que os servios de inteligncia americanos estavam espionando suas comunicaes. 
     Com a retomada das relaes em alto nvel entre os dois pases, o Palcio do Planalto esperava colar em Dilma boas notcias. Os acordos anunciados nas reas de cincia, defesa, tecnologia, clima e reduo de entraves burocrticos, porm, no passam de promessas a longo prazo, muitas j feitas e descumpridas no passado. "As relaes entre os pases no avanavam desde 2011, por motivos ideolgicos e, depois de 2013, pela questo da espionagem", diz o embaixador Rubens Barbosa, que serviu em Washington at 2004. 
     O fim do "gelo" diplomtico entre americanos e brasileiros em si  positivo, mas no bastou para Dilma esquivar-se dos desagradveis temas domsticos. Durante a coletiva de imprensa na tera-feira 30, ela foi questionada sobre o escndalo de corrupo na Petrobras e passou mais tempo reclamando do mensageiro do que comentando o fato. Obama saiu em defesa dela mais de uma vez. Disse que Brasil e Estados Unidos tm uma atuao conjunta contra a corrupo e cravou: "Eu e a presidente Rousseff temos uma excelente relao desde que ela assumiu a Presidncia. Eu confio nela plenamente. Ela sempre foi muito honesta e cumpriu suas promessas". Na poltica americana, a segunda metade do segundo mandato de um presidente, quando o apoio da maioria do Congresso  uma raridade, costuma ser dedicada a temas externos, j que  difcil avanar nos internos. Descontadas as idiossincrasias da poltica brasileira, Dilma vive um momento parecido. Impedida, no entanto, de fazer acordos de livre-comrcio por causa das regras do Mercosul, ser difcil alcanar grandes conquistas externas. 
NATHALIA WATKINS
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6# GERAL 8.7.15

     6#1 GENTE
     6#2 POLCIA  SINAL DE ALERTA NO BATALHO
     6#3 NEGCIOS  SOB OS EFEITOS DA CRISE
     6#4 ESPECIAL  O REMDIO  SONHAR
     6#5 ESPECIAL  POR QUE ALGUMAS PESSOAS SE LEMBRAM DOS SONHOS E OUTRAS NO...

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Karina Morais

MISSTUREBA
O nome do concurso j  uma piada: Miss Mundo Brasil. A origem das misses que tiraram o primeiro e o segundo lugar, mais ainda: Sergipe e Ilhabela, estado e cidade em que nenhuma delas nasceu ou morou. E o desfecho da disputa foi de cansar a beleza: a vencedora, ANA LUSA CASTRO, de Sergipe, teve de dar a coroa a CATHARINA CHOI porque se descobriu que ela  casada, na Blgica (miss precisa ser solteira). Passada uma semana da confuso, as duas ficaram amigas a ponto de pensar em dividir um apartamento no Rio de Janeiro. Catharina, que descende de sul-coreanos e j apresentou programas numa TV de Seul, prepara-se para o Miss World, que ser em dezembro. Ana Lusa quer se aperfeioar como atriz. "Na Blgica, fiz um filme em que eu era um zumbi." 

BEIJO DE CINEMA. E DE CLIPE
Elas sabiam que estavam sendo fotografadas. O beijo deve fazer parte de um novo clipe e j faz um bom tempo que MILEY CYRUS incendeia coraes e mentes de fs com comportamentos ousados. Nem por isso a cena foi menos quente. Encostadas em um caminho, num estacionamento, a cantora e a modelo STELLA MAXWELL deram um show de carinhos, sussurros e lindos sorrisos, especialmente quando olhavam para as cmeras. No fim de abril, Miley terminou um namoro com o filho de Arnold Schwarzenegger. Declarou-se bissexual e disse que est aberta "para qualquer relacionamento consentido e que no envolva animais ou menores de idade".

A SAGA DA ZEBRA
O francs Yannick Noah inaugurou os cabelos com dreadlocks nos grandes torneios de tnis do mundo, nos idos de 1980 (depois, virou cantor com o hit Saga frica). Mas a faanha de bater duas vezes Rafael Nadal, o dcimo melhor tenista do mundo, sendo a ltima delas em Wimbledon, na semana passada, eleva DUSTIN BROWN  categoria de maior zebra cabeluda dos ltimos tempos. Filho de me alem e pai jamaicano, Dreddy, como  chamado o 102 do ranking, por anos, com dificuldades financeiras, dirigiu, cozinhou e dormiu em uma van para conseguir cumprir o circuito de viagens do esporte. F de reggae, tem piercing na lngua e no corta o cabelo h dezenove anos. "Achei que fosse pirar", disse, sobre a vitria na partida. 

VIDA DE BAILARINA. E DE ATRIZ
Pelas costas retinhas, pescoo alongado e elegante movimentao de SOPHIE CHARLOTTE, 26, a Alice da novela Babilnia, j dava para notar que boa parte da vida da atriz foi passada dentro de uma sala de bal. Sophie conta, entretanto, que sua histria com a dana  de nvel profissional: aos 18 anos, ela se formou em bale clssico, jazz e sapateado. "Por causa da dana, aprendi a costurar, j que tinha de preparar minhas sapatilhas, a tocar piano, a comer direito e a me maquiar", diz ela. A vida na ponta do p foi preterida por uma  frente das cmeras com, at agora, razovel sucesso: Sophie ganhou ao menos quinze bons papis e at um noivo. O ator Daniel Oliveira revelou recentemente que pediu sua mo no quintal da casa de um amigo, perto de um balano e embaixo de um p de manga. Mais detalhes sobre a ultrarromntica vida de Sophie na revista BOA FORMA. 

VOC EST... POSSUDO!
Uma pesquisa recente da rede CNN sobre a corrida presidencial americana mostrou que o pr-candidato e milionrio empresrio DONALD TRUMP est em segundo lugar entre os republicanos. Duplo assombro. Primeiro porque Trump, que flerta com a Casa Branca desde 1988, s se candidatou para bombar seus negcios. Segundo porque, em seu anncio de candidato, ele disparou improprios contra os mexicanos. Para o topetudo, eles so "traficantes", "estupradores", e por isso prope a construo de um muro para separar os Estados Unidos do Mxico. Dado o grau de xenofobia, o canal NBC cancelou a transmisso de seu programa O Aprendiz (o do bordo "Voc est demitido"), do Miss Estados Unidos e do Miss Universo, que so de propriedade do empresrio. O prefeito de Nova York disse que as opinies de Trump so "repugnantes" e a loja de departamentos Macy's suspendeu sua linha de roupas. Trump riu: j tem outra TV para passar os concursos, vai processar a NBC em 500 milhes de dlares e diz que "quem  contra a imigrao ilegal deve boicotar a Macy's".


6#2 POLCIA  SINAL DE ALERTA NO BATALHO
Integrantes do Bope relatam a VEJA sua preocupao de que os casos isolados de corrupo possam ser a semente do mal na mais bem preparada fora policial do Brasil.
LESLIE LEITO

     Em uma srie de grampos e mensagens de texto obtidos durante uma operao da Polcia Civil, o terceiro-sargento Arlen Santos Silva negocia com traficantes da quadrilha que se intitula Terceiro Comando Puro (TCP) do Rio de Janeiro. O sargento vende armas, informao e proteo aos bandidos. Em um nico turno ganhava 12.500 reais. Nas conversas, fica evidente que o sargento tem comparsas dentro da corporao a que serve, o Batalho de Operaes Especiais da PM carioca, o Bope. Numa conversa telefnica, o traficante Ronaldinho fala do repasse de propinas ao sargento Arlen e ao "amigo dele". Em uma mensagem de texto, o sargento promete avisar o traficante sobre uma ao policial cujos detalhes lhe seriam passados por um "major". Para milhes de brasileiros que formaram uma imagem do Bope por meio do filme Tropa de Elite, de 2007,  um choque de realidade saber que os vergonhosos fatos narrados acima ocorreram com integrantes da unidade policial impoluta e incorruptvel mostrada na fico. 
     O Bope continua sendo uma das foras mais bem preparadas da polcia nacional. O que esta reportagem mostra  que a blindagem contra desvios de conduta no Bope est sendo constantemente testada por infratores cada vez mais ousados. Casos como o da promscua relao do sargento Arlen com o bandido Ronaldinho podem ser um indcio de que a semente do mal que germina to facilmente nos batalhes regulares da PM se infiltrou no Bope? Essa  a preocupao relatada a VEJA por integrantes da tropa de elite. A partir de informaes deles, a revista apurou vinte casos de infraes graves no Bope. O comando tem sido rpido em afastar culpados e suspeitos. A cultura da intolerncia com os infratores ainda predomina. Mas, para quem vive a realidade cotidiana do batalho, as irregularidades, longe ainda de serem a regra, podem estar se tornando inaceitavelmente mais frequentes. 
     O levantamento feito por VEJA abrange casos que aconteceram nos ltimos sete anos e foram relatados por integrantes do Bope, investigadores das polcias Civil e Federal e corregedores. So ocorrncias graves que demonstram tentativas bem-sucedidas de abrir brechas na blindagem tica do Bope. Em uma delas, revelou-se que Antnio Bonfim Lopes, o Nem, chefo do trfico da Rocinha preso em 2011, tinha sete policiais do Bope na sua folha de pagamento. Um deles, de quem Nem se tornou compadre, ensinava tticas de patrulha  quadrilha. Descobertos por agentes do prprio Bope, os sete bandidos de farda foram transferidos para outros batalhes  o mesmo destino de um cabo suspeito de fazer parte da escolta do traficante mais procurado do Brasil, Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy. 
     "Em determinado momento, o bicheiro Alcebades Paes Garcia decidiu que, para fazer a segurana dele, seria preciso recrutar integrantes do Bope. Criou-se ento a 'tropa do Bide'", relata um delegado da Polcia Federal que investigou o grupo. Um vdeo de 2008 obtido por VEJA mostra trs policiais da tropa de elite escoltando Bide at um carro. Tudo indica que os militares foram desmascarados e transferidos para outros batalhes, mas o inqurito militar que apurou o caso foi arquivado. 
     Durante a retomada do Complexo do Alemo, transmitida ao vivo pela TV em novembro de 2010, o comandante de uma equipe do Bope que encontrou um paiol de armas ficou com dois dos fuzis apreendidos. Um tenente denunciou o comandante. Os dois fuzis reapareceram e o oficial foi afastado. Na mesma operao, em uma das favelas do complexo, a Vila Cruzeiro, dois policiais do Bope foram flagrados, de folga, em um caminho de mudanas com o qual esperavam furtar objetos de valor da casa de um traficante. A ao foi frustrada e os dois, transferidos. No fim do ano passado, o ento comandante do Bope, tenente-coronel Lus Cludio Laviano, ligou de madrugada para o batalho e descobriu que uma turma do planto havia sado para uma misso sem comunicar a ao a ningum. No dia seguinte, todos os dez integrantes da misteriosa operao foram sumariamente excludos da tropa de elite e transferidos para outros batalhes. A ao fulminante cortou o mal pela raiz? Aparentemente sim, mas fica a incerteza de que a melhor conduta foi mesmo a transferncia imediata dos suspeitos, sem que se apurasse em detalhes o que fizeram fora do batalho, fardados e armados, naquela noite. 
     Comandante do Bope em 2006 e ex-chefe da prpria PM fluminense, Mrio Srgio Duarte esmia a prtica, que vem passando de uma gesto a outra: "O Bope no espera a materializao de uma desconfiana para afastar seus indesejados. Fao at um mea-culpa. Na dvida, os comandantes transferem seus potenciais problemas". Alguns so efetivamente investigados, outros no. Essa lgica do silncio faz parte da estratgia de foras de segurana de elite em todo o mundo. A aura de incorruptibilidade tem de ser mantida a qualquer custo. Investigaes internas no FBI americano ou na Scotland Yard inglesa ocorrem longe dos olhos do pblico. S raramente so reveladas. 
     Criado como Ncleo de Operaes Especiais, em 1978, o Bope reunia apenas vinte homens escolhidos a dedo para compor a elite da polcia. O ncleo virou companhia, que se tornou batalho. Hoje so 450 "caveiras", apelido dos integrantes do Bope por causa do distintivo com o crnio humano trespassado por um punhal  smbolo quase universal de unidades de elite balizadas de "do or die", ou seja, misso cumprida mesmo que o custo seja a morte. Fundador da tropa e especialista em segurana pblica, o coronel Paulo Csar Amendola acredita que o inchao do contingente foi fator determinante para o aumento das infraes: "Com pouca gente,  mais fcil manter a disciplina rigorosa". Uma das caractersticas das unidades de alto desempenho, como os Seals, da Marinha dos Estados Unidos,  organizar-se em equipes pequenas em que todos os integrantes se respeitam, se conhecem  e, claro, se vigiam. 
     Em 77 incurses contra traficantes nos ltimos dois anos, os policiais do Bope mataram 83 pessoas em combate. Quantas foram mortas depois que se renderam, confundidas com bandidos ou simplesmente atingidas por projteis disparados contra o alvo errado por criminosos ou policiais? No se sabe. O Bope faz operaes de guerra  e nas guerras matar  a lei. "Desvio de conduta aqui  roubar", diz um sargento com mais de dez anos de experincia na unidade. Para os que seguem esse cdigo inflexvel, o elo de colegas com a bandidagem  grave o suficiente para que se rompa o silncio e se revelem segredos  como os casos trazidos  luz por esta reportagem de VEJA. Procurados pela revista, os comandantes da PM e do Bope preferiram no falar. Fica o alerta. 

O ento sargento do Bope Arlen Silva oferece fuzis ao traficante Ronaldinho, brao-direito do chefo do Complexo da Mar. 
Sargento Arlen  Qual  neguinho?! Eu estou com um negocinho pra tu aqui! Como  que faz? 
Ronaldinho  Ento...  trazer... quanto que  cada um? 
Sargento Arlen  Quatro cinco (45.000 reais) 
Ronaldinho   muito, man! 
Sargento Arlen  Vou chegar a e a gente desenrola. 

O sargento promete ao traficante avisar quando o Bope far uma operao na Mar 
Ronaldinho  Passou uns carros da Light (viaturas do Bope) aqui, com um guindaste tambm, entendeu? 
Sargento Arlen  Qualquer parada a eu vou acionar. 
Ronaldinho  Valeu, tamo junto!  

O traficante deixa claro a um intermedirio que a propina no  paga somente ao sargento 
Ronaldinho  D um toque l naquele amigo (o sargento), que foi comprar roupa contigo, que tu t pegando o negcio (propina) pra ele e do amigo dele. D um toque nele a, cara, que eu t mandando uma mensagem pra ele, pra ele ver um negcio pra mim, entendeu (se o Bope ir  Mar)? E amanh  dia do amigo dele (agente de outra equipe do Bope) que t pegando (propina), entendeu? 


6#3 NEGCIOS  SOB OS EFEITOS DA CRISE
A estagnao econmica segura os ganhos das maiores empresas brasileiras, trazendo demisses e aumento de dvidas. Para crescer, uma sada  o mercado externo.

     Nem as maiores empresas brasileiras conseguiram driblar o difcil ano de 2014, marcado pela estagnao econmica em um ambiente de inflao em alta e incerteza poltica. A anlise dos resultados financeiros e operacionais das 500 maiores companhias do Brasil revela que a elite empresarial saiu enfraquecida do ano passado, resultado que j serviu como prenncio de um cenrio ainda mais desafiador em 2015. A 42 edio de MELHORES E MAIORES da revista EXAME, da Editora Abril, tambm responsvel pela publicao de VEJA, revela que em 2014 o faturamento das 500 maiores empresas alcanou 854 bilhes de dlares, ou 2,5 trilhes de reais, um crescimento real (descontada a inflao) de apenas 2,1% em relao ao ano anterior. O destaque negativo foi o lucro somado desse significativo universo, que caiu 34,1% e atingiu o menor resultado em valores absolutos dos ltimos doze anos. Boa parte dessa reduo pode ser atribuda ao prejuzo da Petrobras. Mas no foi s isso. Mesmo quando os resultados da estatal so excludos, o lucro das maiores empresas cresceu a um ritmo que foi a metade do alcanado no ano anterior. A explicao para o fraco desempenho est relacionada  combinao de aumento dos custos de produo, desencadeado pela inflao elevada e pela disparada do dlar, com a crise de confiana do consumidor. A margem operacional reduzida  levou ao aumento das dvidas e tambm  demisso de quase 350.000 trabalhadores, o equivalente a 11,5% do quadro de pessoal entre as companhias analisadas. 
     A exemplo de 2013, os grupos mais internacionalizados tiveram resultados melhores. A sada para compensar a perda de vigor do consumo interno e o custo mais alto da produo domstica foi expandir os negcios em outros mercados. Que o diga aquela que foi eleita a empresa do ano, a catarinense WEG, com operao em oitenta pases, fbricas em onze deles e que obtm mais da metade de sua receita no exterior. Fundada no incio da dcada de 60 por trs scios de Jaragu do Sul, a WEG fornece motores eltricos para geradores de energia elica, mquinas industriais e eletrodomsticos. A empresa faturou 2,7 bilhes de dlares no ano passado, um salto de 42% em relao a 2010. "Atribumos o prmio  nossa capacidade de inovar, desenvolver produtos globais e de diversificar para transpor cenrios mais desafiadores, como o de 2014", afirmou Harry Schmelzer Jnior, presidente da WEG, no evento de premiao em So Paulo, na quarta-feira passada. Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, discursou e sinalizou que o governo pretende finalmente cumprir a sua parte para promover um ambiente de negcios estvel: "Somente um ajuste consistente criar as bases para a retomada do caminho do crescimento econmico com bem-estar social".  


6#4 ESPECIAL  O REMDIO  SONHAR
Os recentes avanos das tcnicas de investigao do crebro por meio de imagens mostram que a ausncia de experincias onricas durante a noite pode ser mais grave para a mente e o corpo que a privao do sono.
FERNANDA ALLEGRETTI E RITA LOIOLA

     A razo pela qual sonhamos intriga os homens desde a Antiguidade. De Aristteles a Schopenhauer, numa estrada de pequenos tijolos que chegaram ao edifcio de Freud, grandes pensadores debruaram-se sobre o tema a fim de dar algum sentido s divagaes onricas. Os sonhos j foram entendidos como recados cifrados do Alm, premonies enviadas por deuses, consequncia da m digesto ou, numa ideia centenariamente jovem, recompensa ao ego frustrado todos os dias. Na Bblia, h numerosas passagens de mensagens divinas transmitidas por meio de devaneios durante o sono. Jos, filho do patriarca Jac,  vendido pelos irmos como escravo e levado ao Egito, onde ganhou status na corte do fara graas  habilidade de interpretar os sonhos do soberano. Em um dos captulos da Ilada, no mundo idlico comandado por deuses, Zeus envia um sonho malfico a Agamenon, aconselhando-o a invadir Tria. Durante milnios, convencionou-se decifrar os sonhos apenas pelo aspecto mtico ou divino. Com A Interpretao dos Sonhos, de Freud, publicado em fins de 1899 com data de 1900, a psicanlise finalmente abriu a porta para que eles fossem entendidos como de fato so  uma resposta da mente s vivncias do indivduo e suas preocupaes cotidianas. 
     Extraordinrios avanos dos ltimos cinco anos na investigao do crebro por meio de tomografia e ressonncia magntica ajudam a entender o que ocorre com nossas conexes neurais quando sonhamos. A cincia do crebro resultou num duplo e paradoxal resultado: de algum modo, esmaeceu o caminho freudiano, porque se sabe hoje que nem todas as demandas vm do inconsciente, nem tudo  desejo reprimido, mas ao mesmo tempo iluminou a construo freudiana, a cama em cima da qual se construiu um conjunto de investigaes agora sim capaz de entregar alguma resposta. Freud morreu sonhando em fazer da psicanlise uma cincia de fato, concreta, respeitvel. Quase um sculo depois de sua morte, no  errado dizer que finalmente conhecemos a mquina que l sonhos, o crebro  embora imensas zonas de mistrio ainda persistam, felizmente, porque elas ampliam o fascnio de uma das buscas mais duradouras da civilizao, a da compreenso do funcionamento da mente depois do fechar de olhos. Uma frase do psiclogo americano Rubin Naiman, professor do Centro de Medicina Integrada da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, serve como epgrafe das recentes descobertas. "A privao de sonhos  mais prejudicial ao corpo humano, origem de graves distrbios mentais e fsicos, que a privao do sono." O remdio  sonhar. 
     Em 2010, experimentos da Escola de Medicina de Harvard mostraram que os sonhos ajudam a fixar o aprendizado recente. Os participantes foram submetidos a um jogo virtual que simulava um labirinto. No intervalo, parte deles dormiu e outra se manteve acordada. Aqueles que sonharam com o jogo tiveram desempenho dez vezes melhor do que os que ficaram acordados ou do que os que dormiram mas no sonharam. O contedo das divagaes normalmente era absurdo e ilgico, como  comum, alis. Mas os cientistas avaliaram que as imagens eram reflexo do crebro reunindo memrias relacionadas ao jogo, em busca de solues. At o advento da ressonncia magntica, capaz de analisar o crebro em atividade, mesmo enquanto a pessoa dorme, a fase de sono REM era tratada como momento de delrio. REM  a sigla em ingls para movimento rpido dos olhos (veja o quadro). Durante essa fase do sono, o crtex pr-frontal, rea cerebral que responde pelo pensamento racional, tem atividade to baixa que, na prtica, est desligado.  o atalho que deixa a mente livre para subverter a lgica da realidade. 
     A comprovao definitiva da existncia de contedos visuais dos sonhos veio em 2013, em um estudo de cientistas japoneses publicado na revista cientfica Science. Em sesses ao longo de dez dias, voluntrios foram submetidos a perodos de sono profundo dentro de uma mquina de ressonncia magntica. Quando os pesquisadores identificavam no monitor sinais neurais ligados  experincia de sonhar, acordavam o indivduo e perguntavam o que estava sonhando. As fotografias mentais relatadas eram ento associadas ao comportamento especfico do crebro ao reconstituir aqueles sonhos. Se o voluntrio sonhava com documentos de trabalho no escritrio, por exemplo, registrava-se como a estrutura neural reagia a isso. Cada indivduo repetiu a experincia 200 vezes. 
     Em um segundo momento, os cientistas mostraram imagens de objetos relacionados aos sonhos narrados aos participantes do estudo, que passaram novamente pela ressonncia. Revelou-se que a atividade neural ao ver os itens era similar  que ocorria ao vislumbrar as mesmas imagens em sonho. Ento, um computador foi programado com as informaes coletadas, como um lxico. O intuito era que o software, munido dos padres cerebrais dos voluntrios, fosse capaz de identificar o que cada um sonhava em novas sesses de ressonncia. Ele conseguiu acertar o contedo onrico com 60% de preciso. O neurocientista Yukiyasu Kamitani, principal autor do estudo, declarou a VEJA: "Mais que certificar a existncia dos sonhos, nosso experimento os vinculou em definitivo  vivncia cotidiana". Os objetos exibidos aos participantes representavam, enfim, elementos rotineiros que apareciam nos sonhos. Para o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, da Universidade Duke, dos Estados Unidos, e diretor do reputado Instituto do Crebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a pesquisa de Kamitani resolve um enigma que perdurou por dcadas. "Muitos bons cientistas acreditavam que o sonho no existia, que era um delrio gerado pela mente ao acordar", afirma Ribeiro. "Os japoneses comprovaram que as pessoas sonham enquanto esto dormindo, e esse contedo pode ser analisado de maneira objetiva." Freud estaria sorrindo, vencedor  mas no. 
     Alguns dos mais competentes especialistas nesse olhar de laboratrio para os sonhos arranharam sem d a linha freudiana de raciocnio  ressaltando, evidentemente, sua relevncia, mas considerando-a ultrapassada. Disse a VEJA o americano Allan Hobson, de 82 anos, psiquiatra e professor emrito da Escola de Medicina de Harvard: "Quando comecei a estudar, a rea era impregnada das ideias de Freud. Acreditvamos que ele estava certo, mas, com o tempo, descobrimos que as evidncias apontavam para o oposto". Para Freud, os sonhos eram a satisfao de desejos reprimidos durante o estado de viglia.  noite, quando a mente sonolenta enfraquece a censura ao inconsciente, as vontades recnditas utilizariam smbolos  metforas, metonmias  para chegar  conscincia. Como Freud demonstrou, a compreenso desses smbolos seria uma chave fundamental para entender os sofrimentos, as angstias dos indivduos. Por isso, os sonhos se tornaram to relevantes para a psicanlise. Afirma Hobson, o anti-Freud: "O sonho no  um processo inconsciente que revela desejos reprimidos, como uma passagem secreta para uma realidade  qual no temos acesso. O material onrico  proveniente de experincias conscientes, no est escondido, e seu significado  claro". No entanto, acredita o psiquiatra, ainda assim  intil tentar entend-los pelo vis da psicanlise. "A interpretao conduz ao erro, pois lembramos menos de 10% do que sonhamos", conclui. A resposta psicanaltica a Hobson mostra um evidente exagero. No importa quanto lembramos daquilo que foi sonhado. "No  qualquer sonho que ajuda na terapia, mas aquele que o paciente lembra espontaneamente durante a sesso, o sonho manifesto que leva a uma associao de ideias", diz a psicanalista Marta Foster, da Sociedade Brasileira de Psicanlise de So Paulo. 
     O que as novas tcnicas buscam  um padro, de modo a organizar os sonhos e, a partir da catalogao, entend-los. Sonhamos com quedas, com voos, com nudez pblica. Interpretar o que significam  quase um jogo de adivinhao. Rene ilaes geniais como as de Freud (algumas apenas engraadas), mas termina em almanaques caa-nqueis e sites de internet repletos de tolices. O fundamental  saber como sonhamos, em que momentos brotam determinados tipos de sonho, como o crebro trabalha com eles  e no o que significam. O casamento de um padro comum de sonhos somado aos desejos ntimos, individuais, sem a ambio incua de traduzi-los,  o alvo de um extraordinrio levantamento em curso. O americano Roc Morin, professor de psicologia na City College de Nova York, criou o World Dream Atlas (mapa-mndi dos sonhos). Em visita a dezessete pases, ele perguntou a 400 pessoas sobre o que sonhavam e registrou as histrias. Ao final, descobriu que sonhos seguem enredos semelhantes, mas tm cenrios coloridos de acordo com a cultura local. "Ainda revelam pessoas como realmente so. Nas divagaes noturnas no precisamos parecer competentes ou bondosos. Somos sinceros conosco", disse Morin a VEJA.  sinceridade s alcanada, em viglia, nas grandes obras de arte. Os surrealistas fizeram dos sonhos sua sintaxe. No por acaso,  comum associ-los ao cinema. "A linguagem visual cinematogrfica  similar  de sonhos que vivenciamos diariamente e, por isso, provoca familiaridade no espectador", diz Srgio Telles, autor do livro O Psicanalista Vai ao Cinema (veja o quadro). 
     Dado o papel fundamental dos sonhos na criatividade e na solidificao do aprendizado mais do que na investigao da alma inventada por Freud e seus discpulos, os psiquiatras inauguraram um veio de estudos atrelado aos tempos modernos: a falta de sonhos, a privao daninha  qual se refere o americano Rubin Naiman no incio desta reportagem. O exagerado uso de medicamentos como antidepressivos e tranquilizantes, fato incontornvel de nosso tempo, tende a provocar a supresso do sono REM, ao alterar o ciclo natural durante a noite. Despertadores, mensagens de texto e consulta  internet por meio de onipresentes smartphones levados  cama so inimigos nada naturais do ritmo biolgico do organismo (e no cabe aqui nenhuma postura ludita contra a tecnologia, imprescindvel). Mas o sono no  mais o mesmo, com a toada de quatro estgios que se repetem de quatro a seis vezes numa noite, comumente interrompido. E sono entrecortado  sinnimo de sonho ruim, ou sonho nenhum. E o mal-estar da civilizao, agora, sabendo que sonhar  como dormir,  no poder t-lo com a qualidade necessria. O bom resultado desse incmodo  a profuso de pesquisas. 
     Elas tm aplicaes em reas distintas. Na psicologia, naturalmente atreladas a Freud, podem ser teis no tratamento do stress ps-traumtico, quando so recorrentes os sonhos relacionados ao evento que ocasionou o trauma. Ao monitorar o sono do paciente, o mdico poder conduzir com mais eficincia a terapia. Na educao, o conhecimento sobre os sonhos pode auxiliar a tratar deficincias de aprendizado, ao estimular a memria. Na medicina, apoiar o avano dos estudos do crebro. Diz o neurologista Edson Amaro, coordenador do Instituto do Crebro do Hospital Albert Einstein, em So Paulo. "Compreender os sonhos nos ajuda a vasculhar o funcionamento neurolgico. E quanto mais soubermos sobre o crebro, melhor poderemos tratar as doenas associadas a ele. 


O QUE ACONTECE DEPOIS DO FECHAR DE OLHOS
O ciclo do sono dura em mdia 100 minutos e  dividido em quatro estgios, que se repetem de quatro a seis vezes durante a noite. Os primeiros estgios, chamados de NREM, so imprescindveis para a recuperao fsica. Na ltima fase
a REM, ocorrem os sonhos mais fantasiosos.

NREM  Movimento no rpido dos olhos  (eles ficam praticamente estagnados)
REM  Movimento rpido dos olhos (eles se mexem de forma veloz, procurando por uma direo)

ESTGIO 1
Relaxamento
Durao: 10 minutos
NREM  Os msculos comeam a relaxar. Os espasmos so comuns. H uma perda progressiva de conscincia e da ligao com o mundo exterior. A melatonina  liberada.
Sonhos recorrentes - De quedas no vazio.  mais uma alucinao do que um sonho propriamente dito. A sensao  causada porque os msculos perdem o tnus.

ESTGIO 2
Quando nada ocorre
Durao: 45 minutos
NREM  Ainda  um perodo de sono leve. Praticamente todo o tnus muscular  perdido. Embora a atividade cerebral tenha sido reduzida, h picos de atividade. Os batimentos cardacos diminuem, assim como a temperatura corporal.
Sonhos recorrentes - Este  um estgio conhecido pela ausncia de sonhos.

ESTGIO 3
Preocupaes cotidianas
Durao: 25 minutos
NREM  A maioria dos estmulos exteriores passa despercebida. A presso arterial cai, aumenta o fornecimento de sangue para os msculos e a respirao se desacelera ainda mais.  o perodo mais propcio para o sonambulismo.
Sonhos recorrentes - Os menos vvidos, sem emoo e com pouco ou nenhum componente ilusrio. So bem curtos, e com frequncia remetem a situaes cotidianas, como uma prova ou o trabalho. Apenas metade das pessoas se lembra dos sonhos quando acorda nessa fase.

ESTGIO 4
Fantasias e pesadelos
Durao: 20 minutos 
REM   a fase mais profunda. H picos de batimento cardaco e de presso arterial, alm de descargas de adrenalina. Os movimentos musculares involuntrios cessam, a respirao se acelera e a atividade cerebral aumenta consideravelmente.
Sonhos recorrentes  Os longos e fantasiosos. At 85% das pessoas que acordam nesse momento se lembram da experincia. Com a acelerao da atividade cerebral, aumenta a imaginao. Ocorrem pesadelos, assim como sonhos de que estamos voando ou sendo perseguidos.

O MAPA-MUNDI DOS SONHOS
O americano Roc Morin, professor de psicologia da City College de Nova York, j visitou, desde junho do ano passado, dezessete pases na sia, Europa e Amrica do Norte, e at agora perguntou a 400 pessoas o que elas sonham. A ideia  criar um lxico onrico.
O autor do estudo no fez questo de anotar o nome das pessoas ouvidas. O motivo, segundo ele: "As imagens dos relatos so mais importantes do que os nomes, revelam padres e sobretudo influncias culturais".

Mission Viejo  ESTADOS UNIDOS
Evidentemente, um carioca pode sonhar com icebergs; um islands, com um dia de sol em Copacabana  mas o cotidiano imprime indelevelmente suas marcas.
"De repente, pensei: morri. S que na verdade comecei a voar, passei sobre florestas, olhei para cima e vi uma bela estrutura brilhante. Parecia a Lua, mas era maior e estava mais perto da Terra. No fui at l, procurei um aeroporto, e voei at acordar. Depois, eu me arrependi. Se reconhecermos a luz e formos at ela, no precisaremos reencarnar".
O padro comum aos sonhos: a apario de figuras e entes superiores
A particularidade: a imagem luminosa, brilhante, interpretada pelo sonhador como um sinal divino, pode estar relacionada a uma moderna tradio americana, a explorao espacial. O aeroporto do sonho tambm pode ser casado a outra tpica figura da cultura americana: o avio

Berlim  ALEMANHA
"Gosto de lembrar de um sonho da minha me. Quando ela soube que estava grvida, pensou em no levar a gestao at o fim, pois eu teria 90% de probabilidade de nascer com uma doena degenerativa. Mas, em um sonho, um padre lhe disse que eu seria saudvel. Nasci sem problemas"
O padro comum aos sonhos: a presena de eventos religiosos, divinos
A particularidade: a forte tradio catlica europeia aparece na figura do padre.

Reykjavik  ISLNDIA
"Estava em uma sala sem janelas, e a escurido era tanta que eu no podia respirar. De repente, vi um pequeno feixe de luz vindo da porta. Dentro da luz havia uma pessoa minscula"
O padro comum aos sonhos: a presena de seres mgicos
A particularidade: na Islndia, mais de 54% da populao acredita na existncia de elfos.

Chernobyl  UCRNIA
"Cresci durante o domnio sovitico. Quando tinha uns 10 anos, em meados da dcada de 70, acordei assustado por um sonho com exploses nucleares, nuvens como cogumelos. Espervamos um ataque americano"
O padro comum aos sonhos: pesadelos infantis relacionados a situaes reais de perigo
A particularidade: o momento histrico pelo qual passava a Ucrnia, no apogeu da Guerra Fria, era terreno frtil em alimentar o medo de um conflito nuclear e de ataques inimigos.

Horlivka  UCRNIA
"Quando matei minha primeira vtima, para defender minha terra contra os russos, no dormi por trs dias. Nos meus sonhos, sempre vejo combates e amigos que foram mortos lutando. A minha esposa, Oksana, que tambm  militar, sonha com as mesmas cenas"
O padro comum aos sonhos: imagens do cotidiano e do passado
A particularidade: cenrios de batalhas, com mortos, so comuns entre soldados e milicianos, e podem ser interpretados como uma forma de digerir a violncia.

Bangcoc  TAILNDIA
"Estava nua, mergulhando em uma piscina funda. Depois, boiava, rodeada de lrios. Ento, ficava aterrorizada, pois havia perdido o colar que minha av me deu, as pulseiras que eram um presente do meu namorado e a aliana que herdei de minha me"
O padro comum aos sonhos: narrativas de perdas ou angstias
A particularidade: a presena de flores e joias, elementos marcantes da tradio tailandesa, indica a importncia desses smbolos no dia a dia.

Ahmedabad  NDIA
"Sempre sonho com a deusa Amba Ma, no templo ou em casa, silenciosa. Sei que  ela porque tem muitos braos e seu rosto  como o dos retratos. A primeira vez que veio, tive medo. Agora, fico feliz"
O padro comum aos sonhos: figuras sagradas recorrentes
A particularidade: a religiosidade surge na imagem da deusa, representao do sublime na cultura indiana.

CERTEZAS NASCIDAS NA CAMA
     Em O Livro dos Sonhos, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) fez uma magistral antologia de relatos onricos, de tempos bblicos aos filsofos contemporneos. Borges lembra a Eneida, poema pico de Virglio, para quem existem duas portas divinas das quais nos chegam os sonhos: a de marfim, que  a dos sonhos enganadores, e a de chifre, que  a dos sonhos profticos. Escreveu Borges: "Face aos materiais escolhidos, dir-se-ia que o poeta sentiu de uma forma obscura que os sonhos que se antecipam ao futuro so menos preciosos do que os enganadores, os quais so uma inveno espontnea do homem que dorme". Um dos mais recorrentes mistrios da mente humana  a tentativa de buscar entender se os sonhos podem mesmo virar realidade, desculpado o chavo dessa ltima frase. Sonhos podem, sim, acontecer, como que profetizados - mas convm atribuir esse sucesso a coincidncias ou, na maioria dos casos, e na melhor das hipteses,  perseverana depois de tocar o despertador. 
     O colcho mais acolhedor para abraar esse fascinante passeio de sonhos que viram coisas concretas  o da criatividade, na cincia e nas artes. Paul McCartney diz ter composto Yesterday dormindo. Intitulou-a de Scrambled Eggs (ovos mexidos), mas felizmente acordou para rebatiz-la. Keith Richards gravou a primeirssima verso da melodia de (I Cant Get No) Satisfaction num gravador de rolo que colocara ao lado da cama. Foram quarenta minutos de ronco registrados em fita e um dos mais conhecidos riffs de guitarra de todos os tempos. Mas em nenhuma outra rea h tanto fascnio pelo real herdado do imaginrio quanto na cincia. O caso mais emblemtico  o do qumico alemo Friedrich August Kekul (1829-1896), que sonhou com uma cobra mordendo a prpria cauda e, a partir das imagens onricas, evidentemente j desperto, construiu a ideia da estrutura cclica das cadeias de carbono, pea fundamental da qumica orgnica (veja outras descobertas associadas a sonhos). 
     As palavras de Kekul ajudam a entender por que sonho no  sinnimo de mgica, mas ilumina belamente o casamento do que nos  produzido de olhos fechados com aquilo que construmos de olhos abertos. "Estava sentado escrevendo meu manual, mas o trabalho no progredia; meus pensamentos estavam dispersos. Virei minha cadeira para a lareira e adormeci. Novamente os tomos saltaram  minha  frente. Desta vez os grupos menores permaneciam modestamente no fundo. Meu olho mental, aguado pelas repetidas vises do gnero, discernia estruturas mais amplas de conformao mltipla. Longas fileiras s vezes mais estreitamente encaixadas, todas rodando e torcendo-se em movimentos de cobra. Mas veja s! O que  aquilo? Uma das cobras havia agarrado a prpria cauda e a forma rodopiava de modo a debochar ante meus olhos. Como se  luz de um relmpago, despertei; e desta vez tambm passei o resto da noite tentando entender as consequncias da hiptese. Senhores, aprendamos a sonhar, e talvez ento encontremos a verdade (...) mas tambm vamos ter cuidado para no publicar nossos sonhos at que eles tenham sido examinados pela mente desperta." Em outros termos, o genial matemtico John Nash, morto recentemente, conhecido pelo filme Uma Mente Brilhante, retrato de sua galopante esquizofrenia, disse a mesma coisa: "Na loucura, vivi sonhos que pareciam reais e tive at algumas ideias, mas todas muito estranhas. Nenhuma aproveitvel".

FRIEDRICH AUGUST KEKUL
(1829-1896), qumico alemo
O que sonhou: com uma cobra que mordia a prpria cauda
O efeito: inspirou sua concluso de que molculas de benzeno poderiam ser constitudas de anis de tomos de carbono - em modelo estrutural similar ao da cobra se mordendo. No mesmo ano, 1865, descreveu a estrutura do benzeno em um artigo hoje clssico.

RENE DESCARTES
(1596-1650), filsofo francs 
O que sonhou: em novembro de 1619 teve a viso organizada de um novo mtodo cientfico
O efeito: no Discurso do Mtodo (1637), Descartes descreveu quatro preceitos fundamentais para chegar a concluses verdadeiras, aceitos at hoje: 1. Duvidar de tudo; 2. Dividir problemas e questes em pequenas partes; 3. Resolver primeiro as questes mais fceis; e 4. Fazer revises para nada omitir.

LOUIS AGASSIZ
(1807-1873), zologo e gelogo suo
O que sonhou: com a estrutura de um fssil de peixe que tentava classificar. O sonho se repetiu por trs noites seguidas.
O efeito: como todas as caractersticas do esqueleto do animal que estudava apareceram no sonho, Agassiz conseguiu extrair o espcime encravado em uma pedra e classific-lo.

LUZES DE CINEMA
     No parece exagero afirmar que, entre todas as manifestaes artsticas, o cinema  a que mais se aproxima da experincia de sonhar. Nem a escurido lhe  alheia - ainda que, para um, os olhos devam estar bem fechados, e, para outro, bem abertos. "Falar sobre sonhos  como falar de filmes", dizia o cineasta italiano Federico Fellini. "O cinema utiliza a linguagem dos sonhos; anos podem se passar em um segundo e voc pode saltar de um lugar para outro.  uma linguagem feita de imagem. E, no cinema de verdade, cada objeto e cada luz significam alguma coisa, como em um sonho", acreditava o diretor. No por acaso, sua fase mais extraordinria - em que se destaca Amarcord (1973), por exemplo - foi marcada sobretudo pela dimenso onrica. 
     "O sonho, claro, se identifica com todas as artes na medida em que estamos falando de formas de reelaborao simblica da vida. Mas  no cinema que isso se realiza de maneira mais completa, e por um motivo simples: o cinema 'falsifica' melhor a vida", argumenta o crtico Amir Labaki, diretor e criador do  Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentrios. "Falsificar", no caso, significa traduzir o intraduzvel, transpor o intransponvel: o real propriamente dito. 
     O cinema costuma fazer isso de duas maneiras. s vezes, mimetiza, explicitamente, a linguagem onrica.  quando a narrativa se fragmenta, as noes de tempo e espao so rompidas, o impossvel se torna possvel (com o precioso auxlio da sofisticao tecnolgica). H tambm, entretanto, o recurso de pr em cena, ou seja, na tela, a materializao de um sonho de algum personagem. Em Morangos Silvestres (1957), o sueco Ingmar Bergman trabalha nos dois caminhos. Logo no incio da trama, o protagonista, um mdico de 78 anos que est prestes a receber uma homenagem, sonha - e o diretor explora com mestria situaes surreais. Pouco depois, o velho senhor  tomado por lembranas do passado, desencadeadas por uma sucesso de fatos que inclui o encontro com um grupo de jovens na estrada. A certa altura, o mdico do presente, idoso, est diante de uma antiga paixo, que ostenta o frescor de sua juventude. "Para mim, o cinema  mais sonho se no mostrar um sonho, apenas o imita em sua estrutura", sentencia Labaki. Sem dvida. Quando, no meio de um sonho, o sonhador se d conta de que est sonhando,  quase invarivel o que ocorre a seguir: ele acorda. 
     Com a afinidade existente entre sonho e cinema, seria natural que a psicanlise se interessasse por filmes. Alis, cinema e psicanlise so contemporneos - basta lembrar que a edio de Estudos sobre a Histeria, de Sigmund Freud e Josef Breuer, e as primeiras sesses pblicas do cinematgrafo dos irmos Lumire datam do mesmo ano, 1895. E A Interpretao dos Sonhos, de Freud, obra fundamental do pensamento psicanaltico, foi publicada no fim  de 1899. O criador da psicanlise, no entanto, no se entusiasmava com o cinema. Entrou pela primeira vez em um deles em 1909, durante a viagem que fez aos Estados Unidos. Em 1924, Freud evitou receber o produtor Samuel Goldwyn, que queria sua colaborao em um longa sobre histrias de amor. Na sequncia, acabaria concordando com que um caso clnico de Karl Abraham, presidente da Associao Internacional de Psicanlise, fosse adaptado para o cinema - o que resultou em Segredos de uma Alma (1926), de G.W. Pabst. A durao filme  de 97 minutos - muito prxima  do ciclo do sono, que tem em mdia 100 minutos.  na ltima fase do sono que ocorrem os sonhos mais intensos; com cerca de vinte minutos, ela pode se repetir de quatro a seis vezes. Morangos Silvestres tem 91 minutos e Amarcord, 123. No "cinema de verdade", para usar a expresso felliniana, cada elemento ilumina alguma coisa - como em um sonho.
RINALDO GAMA


6#5 ESPECIAL  POR QUE ALGUMAS PESSOAS SE LEMBRAM DOS SONHOS E OUTRAS NO...

...e mais dez perguntas de tirar o sono
Primeiro, a resposta para a questo do ttulo acima: para recordar  preciso acordar em meio a um sonho, e preferencialmente durante a fase REM (sigla em ingls para movimento rpido dos olhos), o ltimo dos estgios de cada ciclo do sono. Ainda assim, ao longo de qualquer experincia onrica, a serotonina, o neuromodulador responsvel pela memria, est ausente. Lembra-se mais de sonhos do fim da noite, quase amanhecer, quando a serotonina volta a ser naturalmente produzida pelo organismo. 
Explicaes precisas como essa foram alcanadas em sua maior parte nos ltimos cinco anos, por meio de pesquisas com o uso de tcnicas como eletroencefalograma, tomografia computadorizada e ressonncia magntica. Os estudos modernos buscam decifrar a natureza dos devaneios noturnos e compreender seu papel ao substituir as interpretaes psicanalticas pelo mtodo cientfico, ancorado em dados e testado em laboratrios.

1- Por que os sonhos, mesmo nem sempre sendo assustadores, costumam ser absurdos, de puro nonsense? 
Com a parte do crebro responsvel pelo pensamento racional desligada durante a noite, a mente fica livre para associar memrias, sensaes e experincias de maneiras muito diferentes das que ocorrem na realidade. Inexiste, portanto, ordem ou lgica. Essa sinfonia atonal ocorre fundamentalmente nas ltimas fases de cada ciclo de sono. 

2- D para acordar e depois continuar no mesmo sonho? 
Como os sonhos so causados por uma sequncia de aes neuronais padronizadas,  possvel que eles se desdobrem em "captulos", com as mesmas memrias e reas do crebro sendo ativadas.  semelhante ao processo seguido pelos pesadelos recorrentes. 

3- Por que temos pesadelos? 
Esses teriam sido os primeiros tipos de sonho em seres humanos, uma adaptao evolutiva construda pela mente para enfrentar mentalmente ameaas da natureza e, assim, proteger a espcie. Crianas, com o crebro ainda em formao, costumam ter muitos pesadelos e sofrem com os terrores noturnos - imagens ou flashes de angstia e pnico que surgem nas primeiras fases do sono. 

4- Conseguimos treinar o crebro para evit-los? 
H pelo menos quinze anos mdicos e psiclogos usam tcnicas de sugesto e visualizao para modificar pesadelos. Com treino dirio e acompanhamento teraputico, o contedo pode ser amenizado e at mesmo desaparecer. 

5- Por que quase nunca morremos no sonho? 
 raro, mas no impossvel. Normalmente, a pessoa acorda pouco antes ou logo depois da cena fatal. Como os sonhos so uma ferramenta evolutiva para ensaiar o futuro, no haveria vantagem na simulao da prpria morte. Mas, quando algum "morre" sonhando,  comum que isso se d durante o sono REM, momento no qual a experincia de delrio  mais fantasiosa. 

6-  possvel escolher ter um tipo determinado de sonho? 
No. Mas h um tipo que nos faz imaginar ser possvel control-lo.  o chamado sonho lcido, em que, na definio de um renomado pesquisador do assunto, o americano Stephen LaBerge, "sonhamos sabendo que estamos sonhando". Nele o crtex pr-frontal, parte do crebro responsvel pela racionalizao, fica ativo, ao contrrio do que acontece nas verses usuais. Em torno de 20% das pessoas tm ao menos uma experincia desse tipo ao longo da vida - oito em dez pessoas, portanto, nunca conseguiro tal lucidez. Alguns indivduos tm um nvel mais alto de percepo. Seu crebro identifica o devaneio ao perceber que os eventos no fariam sentido algum fora dele. 

7- Os animais sonham? 
No d para saber com certeza, pois os animais, claro, no falam. Os mamferos tm uma fase de sono REM longa, associada  presena de sonhos. No entanto, muitas vezes, nada ocorre durante esse estgio. 

8- Uma pessoa em estado de coma sonha? 
Nessa situao no costumam existir variaes cerebrais que proporcionam o sonho, como o estgio REM. Portanto, em teoria, no seria possvel, nem no coma natural nem no coma induzido por medicamentos. H, no entanto, relatos de alucinaes onricas. Essas experincias poderiam ser causadas por variaes na ao dos medicamentos - seriam, ento, um efeito indesejado dos remdios. 

9- E os cegos, sonham? 
Sim, s que, em vez de imagens, os cegos de nascena vivenciam sensaes sonoras, gustativas, tteis e olfativas. O sentido predominante  a audio - os sonhos dos deficientes visuais costumam ser uma trilha sonora de uma imagem escura. Para quem ficou cego depois de algum tempo tendo enxergado, ainda que com extrema dificuldade, a memria visual persiste, e os sonhos ocorrem tal qual com os aptos a enxergar. 

10- H quem sonhe em preto e branco? 
A maior parte das pessoas diz sonhar em cores, mas, na metade do sculo XX, despontaram estudos relatando verses em preto e branco. No por acaso, coincidiram com o advento da televiso em preto e branco. Havia, portanto, uma referncia visual a partir da qual nasciam os sonhos. De acordo com esse raciocnio, hoje s sonharamos em cores. No  bem assim. Os sonhos, em sua origem, so constitudos de tons menos vvidos. O colorido  como uma pelcula aplicada posteriormente pelo crebro, ao acordar. Quando a lembrana  do formato primrio, o sonho relatado ter sido em preto e branco. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 8.7.15

     7#1 MSICA  A ELITE DO RAP
     7#2 LIVROS  A RESTAURAO DE JLIO I
     7#3 TELEVISO  METAMORFOSE MAGNNIMA
     7#4 CINEMA  SIM, ELE VOLTOU
     7#5 VEJA RECOMENDA
     7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O ESCRITOR E A CASA

7#1 MSICA  A ELITE DO RAP
Crnica da vida nas "quebradas", o rap ainda no conquistou a popularidade do funk, mas vive um momento vibrante, com novos e inquietos autores.
SRGIO MARTINS

     Nos ltimos meses, O Homem que No Tinha Nada, dueto do rapper Projota com a cantora e rapper Negra Li, foi executado 4475 vezes nas rdios brasileiras, segundo a Crowley, empresa que afere a audincia do dial. Ainda no  comparvel s mais de 10.000 execues mensais das canes sertanejas do recentemente falecido Cristiano Arajo, mas  um feito memorvel para um gnero que, embora muito ligado  vida urbana das favelas, luta para ter alcance de massa (no YouTube, o vdeo da msica est chegando aos 3 milhes de visualizaes). De abril a junho, Ivete Sangalo e Criolo percorreram seis capitais num tributo a Tim Maia. O rapper no se revelou o intrprete apropriado para o repertrio do pai da soul music Brasil  mas sua escolha para uma miniturn com pblico mdio de 120.000 pessoas por apresentao  prova da visibilidade do rap. O versejador Emicida foi uma das atraes da Virada Cultural, realizada em So Paulo no fim de junho, e, entre discursos contra a intolerncia religiosa e o racismo, ofuscou  embora no tenha superado  Caetano Veloso, o maior nome do evento. O rap, que s esteve no palco principal da msica brasileira nos anos 1990, com o sucesso dos Racionais MC's, est voltando ao mainstream. Faz pelo menos nove anos que essa revoluo tem sido gestada, especialmente em So Paulo e no Rio, centros que possuem uma forte conexo com a cultura hip-hop e que absorvem os fenmenos das outras metrpoles. Os rappers surgidos nesse perodo, como Emicida e Criolo, vm alcanando a maturidade, enquanto representantes de geraes anteriores voltam  ativa. 
     "O rap no  mais uma cultura apenas do gueto. Os tempos so outros, e a nova classe mdia j foi C e D. Est tudo misturado, e isso  timo", avalia o DJ e produtor Zegon. O rap, alis, nunca foi predominantemente poltico, embora suas letras sempre tragam uma preocupao social. A primeira grande onda do rap no Brasil foi mais agressiva: a ascenso dos Racionais MC's, no incio dos anos 1990, inspirou uma poro de grupos e versejadores de rimas raivosas (o rap, no entanto, sempre teve menos promiscuidade com o trfico do que o funk dos batides). A estabilidade econmica pela qual o pas passou nos ltimos anos fez com que os versos fossem abrandados (a crise, pelo jeito, ainda no bateu nas rimas). A vocao do rap est na crnica da vizinhana, da "quebrada" do autor  mas isso no significa que a declamao do rapper tenha de ser sempre em tom de denncia. "O rap de protesto no deixou de existir, mas ele se adaptou. A gente sempre vai botar o dedo na ferida", diz Marcello Gugu, veterano das rinhas de MCs (competies de improviso que parecem uma verso urbana das disputas de repentistas no Nordeste), mas ainda pouco conhecido fora do circuito do rap. Hoje, os versos vo do forte contedo social de um Emicida  poesia romntica de Projota, passando pelo astral mstico de Rashid (so dele os versos "proteja-me na hora da entrada / proteja-me na hora da sada", que a ex-Panicat Juju Salimeni tatuou nos braos). Com idade entre 27 e 29 anos, esses trs rapazes da Zona Norte de So Paulo (nomes civis: Leandro Roque de Oliveira, Jos Tiago Sabino Pereira e Michel Dias da Costa) tambm frequentaram as rinhas de MCs e formam a trade fundamental da nova gerao do rap brasileiro. Souberam conjugar talento para rimas com tino comercial. "A gente procurava exemplos que iam da turma do tecnobrega de Belm ao Jay-Z", diz Rashid  e nos dois casos o exemplo era mais empresarial do que musical: a turma do Norte brasileiro desenvolveu bons meios de produo, e o americano Jay-Z  dos mais espertos empresrios do showbiz internacional. Oito anos atrs, os trs paulistas criaram o Na Humilde Crew, associao  ou "coletivo", para usar o jargo  de rappers que lanava de singles a camisetas. Desde a origem, o coletivo explorou as possibilidades da internet para divulgar msica. Criou comunidades no extinto Orkut e no hoje esquecido MySpace para avisar de novidades e para divulgar shows. Mas os rappers logo aprenderam que os nmeros das redes sociais podem ser ilusrios. "No era porque seu Orkut estava lotado que voc iria bombar", diz Rashid. No mundo fsico, a venda direta s vezes funcionava melhor: "Usei o esquema de pr-venda para bancar a minha primeira mixtape. Mas tambm vendi muito na Estao Santana do metr e nas baladas", lembra Projota, que hoje tem uma msica na trilha da novela I Love Paraispolis. A Humilde Crew se desfez em 2009. Dos trs, Emicida foi quem melhor continuou na lida empresarial, lanando a Laboratrio Fantasma, um misto de produtora e gravadora que cuida no s de seus projetos, mas tambm de artistas como o rapper Rael e o cantor Chico Csar. " uma gerao empreendedora, que sabe fidelizar seu pblico", avalia Fbio Rogrio, apresentador do Espao Rap, da 105 FM de So Paulo, o principal programa dedicado ao gnero. Grupos de rap muitas vezes no se limitam s  msica, mas aglutinam uma srie de atividades, do comrcio ao esporte. O Cone Crew Diretoria, formado por seis cariocas com igual talento para o rap e para a desordem, tambm saiu das rinhas de MCs (no caso, a Batalha do Conhecimento, no bairro da Lapa), e preferiu a autogesto. O grupo lana discos de forma independente, tem um canal no You-Tube, possui uma grife prpria e at patrocina atletas de skate, surfe, artes marciais mistas e jiu-jtsu (o lutador Isaque Bahiense, tricampeo mundial do gnero, pertence ao projeto). 
     O rap brasileiro foge do batido das produes americanas. So exemplares as fuses de rap e samba promovidas por Marcelo D2 no fim dos anos 1990. Criolo aprofundou essas fuses ao trazer elementos do samba e do afrobeat, ritmo criado pelo nigeriano Fela Kuti. O rap at dialoga com o rock, algo impensvel nos primeiros anos dos Racionais MC's. O Cone Crew Diretoria, por exemplo, divide palco com veteranos do rock dos anos 1990. "Planet Hemp, Raimundos e Charlie Brown Jr. sempre foram importantes para ns", diz Papatinho, DJ do grupo. "Estamos acostumados a participar de eventos fora do circuito hip-hop." Rincon Sapincia, nome artstico de Danilo Alberto Ambrosio, participou de discos e shows do NXZero, um grupo de roqueiros admirados por meninas adolescentes. Fora, Foco e F, disco de estreia de Projota, tem participao de Dado Villa-Lobos, da Legio Urbana, e ritmos que poderiam caber num lbum do Charlie Brown Jr. H tambm uma aproximao maior com a MPB, evidenciada em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, de Emicida, e nos projetos de Rashid, que recentemente gravou uma verso de Tudo que Voc Podia Ser, de Milton Nascimento, para um tributo ao Clube da Esquina. Israel Feliciano, ou melhor, Rael, faz essas fuses de maneira exemplar. "Cresci escutando Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. No  porque eu descobri Tupac Shakur que vou deixar de gostar desses caras", diz. 
     De acordo com uma pesquisa do instituto Data Popular, o rap mantm seu pblico na quebrada: 12% dos moradores de favelas so fs do gnero. Pode no parecer uma porcentagem to expressiva, mas h uma constncia aqui. "O rap no  um modismo. Com maior ou menor intensidade, ele sempre est presente entre os gneros mais ouvidos na favela", diz Renato Meirelles, presidente do Data Popular. O interesse comercial pelo rap ultrapassa a favela. No ano passado, uma empresa de bebidas se aventurou pelo ramo musical, lanando trs selos. Um deles foi o Buuum, dirigido pelo DJ e produtor Zegon, dedicado principalmente a versejadores que tenham uma pegada pop. "A gente definiu um territrio, que seria o da pista de dana, da msica festiva e da celebrao. O rap entrou ao lado do indie rock e da eletrnica", explica Coy Freitas, executivo da plataforma de msica da nova gravadora. Um dos talentos trazidos  tona por Zegon foi Karol Conka, de Curitiba. Karol, que se iniciou no rap ouvindo Racionais MC's, faz uma linha sensual que no  comum no meio. "As meninas que faziam rap se vestiam e falavam como homens. Me senti desafiada ao fazer diferente", diz. Tombei, seu primeiro single, foi lanado no fim do ano passado. O rap entrou tambm na pauta das gravadoras multinacionais. Projota acabou assinando com a Universal. "Ele tem um olhar bastante crtico para com a sociedade em que vive, e crnicas como A Rezadeira e O Homem que No Tinha Nada convivem muito bem com temas mais romnticos como Mulher e Cobertor. Enfim, muitos recursos para um autor jovem e antenado", diz Jos Antnio Eboli, presidente da companhia. A Sony Music contratou Mr. Armeng, revelado num concurso de talentos de uma TV a cabo, e anda cortejando Emicida. 
     O bom momento do rap propiciou tambm o renascimento de alguns veteranos. O RZO, que tem entre seus destaques o rapper Helio e a cantora Negra Li (e de cujo conglomerado saiu o rapper Sabotage, assassinado em 2003), voltou a se reunir no ano passado. O quarteto foi importante no apenas pela qualidade de suas rimas, mas tambm pela alta musicalidade de seus integrantes. "Se voc pegar uma cano como A Folha Voa, vai perceber que ns j tnhamos essa preocupao de misturar rap com elementos brasileiros", diz Negra Li. Gustavo Black Alien, ex-Planet Hemp, voltou  cena depois uma longa batalha contra a dependncia qumica (pesada e variada, de lcool a cocana). Ele  responsvel por um dos clssicos do gnero, Babylon by Gus, impressionante tanto na produo quanto na qualidade das rimas. O novo lbum, cujo lanamento deve ocorrer entre o fim de agosto e o incio de setembro, chama-se Babylon by Gus Volume 2: no Princpio Era o Verbo, e traz a cantora Cu e o cantor Luiz Melodia entre os muitos convidados. 
     O momento  de escalada, mas o rap ainda briga para alcanar a projeo comercial do funk de Valesca Popozuda e Anitta (cujo DVD, alis, tem a participao de Projota em Cobertor). "O rap ainda precisa chegar junto na cena da msica pop do Brasil. No adianta falar que  antimdia, que no vai na televiso, que no faz entrevista, ou falar de revoluo. Isso a j deu errado", pondera Zegon. A ambio  grande. Rincon, cuja vizinhana foi invadida pela "sofrncia" do cantor baiano Pablo, chama para a batalha: "Quero que as pessoas escutem o rap do mesmo jeito que escutam o arrocha". 

RAIO X DA RAPA
Quem so os fs de rap no Brasil
61% tm at 30 anos
40% tm renda familiar acima de 4500 reais
43% escutam rap no computador e 28% no celular; apenas 17% ainda ouvem CD
Somente 12% moradores da favela escutam rap [* DataPopular]; destes, 62% esto no ensino mdio.
Fonte: Hibou Monitoramento de Mercado e Consumo e DataPopular


7#2 LIVROS  A RESTAURAO DE JLIO I
Em uma biografia caudalosa e detalhista, o historiador Jorge Caldeira recoloca Jlio Mesquita no posto de criador do Estado e modernizador do jornalismo.
AUGUSTO NUNES

     Numa rara incurso genealgica, o filho de imigrantes portugueses nascido em Campinas reiterou, mal disfarando o orgulho do jornalista que vencera apesar de tudo, que o universo cinzento de onde viera no tinha semelhana alguma com o mundo luminoso que agora frequentava. "Descendo de modestssimas famlias transmontanas que, com certeza, nunca puseram os ps plebeus nas escadas de mrmore e nos tapetes vistosos e fofos dos suntuosos paos dos reis, em Lisboa. Os meus antepassados viveram e morreram esquecidos na longnqua provncia, talvez de enxada em punho, desde a madrugada at a noite, ao vento e  chuva cavando desesperadamente os seios ingratos da terra madrasta, para no morrerem de fome." Naquela poca, nove em cada dez flagelados pela misria ancestral eram condenados  vida no vivida. Ele escapou desse destino graas ao amparo financeiro do pai, que prosperara como comerciante no Brasil. E se valeu de uma extraordinria combinao de talento, ventos favorveis e trapaas da sorte para desenhar a singularssima trajetria reconstituda pelo bigrafo Jorge Caldeira nos quatro volumes de Jlio Mesquita e Seu Tempo (Mameluco; 1740 pginas; 292 reais). 
     At agora, relegado pela desinformao histrica a um papel secundrio, Jlio Csar Ferreira Mesquita figurava na saga do Estado como o criador de uma publicao que a segunda gerao transformou na mais influente do sculo XX. Apoiado em pesquisas que, somadas  redao do texto, consumiram quinze anos, Jorge Caldeira corrigiu a injustia: fica claro que o patriarca no merece ser lembrado como o pai do doutor Julinho. Cabe ao doutor Julinho, que comandou o Estado ao lado do irmo Francisco entre 1927 e 1969, o honroso papel de filho de Jlio Mesquita. Ele fez mais que consolidar um feudo que seus descendentes elevariam a reino. Ele concebeu e consolidou o reino que viraria imprio com a expanso das fronteiras consumada pelos herdeiros. O homem que desprezava brases e ttulos nobilirquicos, e por isso no conseguia enxergar no espelho um genuno baro da imprensa, provavelmente morreu sem saber que tinha sobre a cabea uma coroa imaginria. Em 1888, quando comeou a trabalhar no dirio concebido para divulgar a causa republicana, A Provncia , de So Paulo tinha 904 assinantes. Ao morrer, em 1927, 48.638 leitores pagavam para receber em casa um exemplar de O Estado de S. Paulo. 
     Nesse perodo, Jlio Mesquita fez do panfleto de duas pginas sustentado por um pequeno partido o portentoso dirio independente e lucrativo. O quarto volume da obra de Caldeira  reservado  exumao do quadro econmico brasileiro desde a Proclamao da Repblica at a Revoluo de 1930. Os trs primeiros volumes resultam das escavaes que, alm de desenterrar informaes que permitem contemplar com nitidez os avanos modernizadores que aposentaram o prelo e a rotativa antes de alcanar a idade adulta, desmoralizam a histria oficial da Repblica Velha que deturpa, camufla ou assassina a verdade. Os estudantes tapeados por historiadores preguiosos, ignorantes ou simplesmente idiotas aprendem com Jorge Caldeira, por exemplo, que Prudente de Moraes fez mais que lidar com a Guerra de Canudos e sobreviver a um atentado. Ele foi o nico democrata irrepreensvel entre o fim da monarquia e a Revoluo de 1930. Em contrapartida, sai de cena o Campos Salles que livrou o Brasil da falncia para a subida ao palco do trapalho que s no se fantasiava de Pedro III por falta de manto e trono. 
     A leitura ganharia em leveza se Jorge Caldeira no ultrapassasse com frequncia a fronteira onde termina a informao abundante e comea a informao excessiva.  desnecessrio, por exemplo, acrescentar tantos detalhes, citaes e documentos ao trecho que relata a independncia definitiva de Jlio Mesquita. At o entardecer do mandato de Campos Salles, a quem fora sempre ligado por laos familiares e ideolgicos, o jornalista conviveu com o poltico s voltas com as atribuies de deputado e expoente do Partido Republicano Paulista. A ruptura com o presidente (e com os companheiros da campanha abolicionista e da propaganda antimonarquista) revogou lealdades e compromissos que inibiam o jornalista puro-sangue. Livre de freios e constrangimentos, Jlio Mesquita dedicou-se em tempo integral  construo do jornal moderno. Nasceram no Estado a supremacia da notcia, a pluralidade de opinio e a reportagem de longo curso, inaugurada pela cobertura da Guerra de Canudos pelo correspondente Euclides da Cunha. Foi Jlio Mesquita quem determinou as diretrizes essenciais, o estilo solene e o tom contundente dos editoriais que, 100 anos depois, permanecem intocados. Avesso a neutralidades medrosas, escolhia o caminho que lhe parecesse mais afinado com os valores cultivados desde a juventude. Em 1914, o editorialista beligerante afastou-se provisoriamente das frentes domsticas para cobrir a Primeira Grande Guerra entrincheirado na redao. 
     Na paz como na guerra, fosse qual fosse o lado escolhido, Jlio Mesquita se mantinha obediente ao que pensava Jlio Mesquita. Errou e acertou com a mesma convico. Desancou Rodrigues Alves ou Arthur Bernardes com o mesmo entusiasmo esbanjado pelo cabo eleitoral de Rui Barbosa e pelo combatente que trocou o sossego de aposentado pelos barulhos da Revoluo de 1924. Acusado de apoiar os revoltosos, foi preso por pecados que no cometera. Revidaria o castigo imerecido com chicotadas verbais que marcavam para sempre o lombo e a memria dos alvejados. S as noitadas de vivo solitrio  solta em Campinas lhe pareciam mais sedutoras que um dia na redao. Em bares e hotis que nunca hospedaram outros representantes da nobreza republicana, o amante de vinhos, mulheres e conversas com gente simples tomava o lugar do monarca. O grande homem era tratado como grande figura. Onde havia um Jlio I os amigos enxergavam apenas um bom companheiro de farras e festas. 


7#3 TELEVISO  METAMORFOSE MAGNNIMA
Visky, o gay endiabrado de Verdades Secretas, encarna um tipo essencial do mundo da moda  e reafirma o valor de personagens assim para animar uma novela.

     Nos ltimos meses, o ator Rainer Cadete passou por uma metamorfose masoquista para se transmutar em Visky  o gay borboleteante que serve de ama-seca s modelos retratadas em Verdades Secretas, novela das 11 da Globo. Ele obteve o papel depois que o amigo e noveleiro Walcyr Carrasco se empolgou com sua interpretao de um garoto de programa cheio de pinta no teatro. "Na hora eu gelei, pois no tenho nada a ver com o Visky. Mas adoro um desafio", diz o brasiliense. O rapaz se jogou com sofreguido na tarefa  a ponto de ser difcil reconhecer o sbrio advogado Dr. Rafael de Amor  Vida, do mesmo Carrasco, sob aquela figura esvooante. A prova de fogo foram as aulas de salto alto. "No incio, eu parecia uma pata-choca", diz. O desempenho melhorou com exerccios. "Hoje, eu me garanto no salto." 
     Sempre que Verdades Secretas ameaa enfadar com seu drama cinzento sobre a prostituio em uma agncia de modelos, Visky surge para colorir a cena. O personagem j deu a entender que se chama assim porque seu pai queria lhe dar o nome de Whisky. Ele tem sempre um bordo na ponta da lngua: a cafetina Fanny (Marieta Severo)  a "magnfica, magnnima". Mas o endiabrado Visky tem o prprio esquema de agenciamento sexual e vive xingando uma rival gordinha de "baleia". "Gosto do meu corpitcho. No tenho peitos, mas s vezes sinto que eles quicam", atesta o puro malte gay. Gente no mundo da moda torceu o nariz para a faceta negativa explorada pela novela: o chamado "book rosa" das modelos que venderiam o corpitcho. Mas  certo que h figuras rseas como Visky aos montes no meio. 
     Seu sucesso confirma o talento de Carrasco para criar tipos homossexuais capazes de sacudir uma trama. O noveleiro, alis, sabe escolher seus musos. O Flix de Amor  Vida cometeu atos medonhos  mas, graas ao carisma de Mateus Solano, protagonizou o primeiro beijo gay das novelas das 9. Cadete, de 27 anos,  aplicado. Alm de se virar no salto alto, absorveu lies de feminilidade no reality show da drag queen americana RuPaul (seu personagem lembra outra figura do reality show: J. Alexander, treinador das modelos de America's Next Top Model. Mas Cadete diz que nunca viu o programa). Ele fez a sobrancelha, botou megahair para compor seu coque e submeteu-se a uma depilao radical, at nas partes ntimas. "Eu queria saber o que as mulheres sentem. Di demais", diz. O ator desconversa sobre sua sexualidade real. "Acho cafona rotular a pessoa de gay ou htero", afirma. Como diria Visky:  um golpe baixrrimo. 
MARCELO MARTHE


7#4 CINEMA  SIM, ELE VOLTOU
Em O Exterminador do Futuro: Gnesis, Schwarzenegger prova que, no papel do rob T-800, vale tudo o que pesa
ISABELA BOSCOV

     No fosse O Exterminador do Futuro uma produo to barata, com a qual ningum tinha muito a perder, e James Cameron jamais teria conseguido emplacar a ideia esdrxula de entregar o papel central dela a um sujeito meio folclrico, um fisiculturista que em Conan, o Brbaro impressionara tanto pela fartura de msculos como pela escassez de talento dramtico. Com seu jeito todo duro de atuar (no que o verbo realmente se aplicasse quilo que ele fazia diante da cmera), Arnold Schwarzenegger dava novos sentidos ao seu apelido, O Carvalho Austraco. Era 1983, e ningum sabia ainda do que James Cameron era capaz  s ele prprio. Cameron tinha tanta certeza de que Schwarzenegger era o ator de que precisava para interpretar seu rob assassino vindo do futuro que esperou vrios meses para comear a filmagem, enquanto ele rodava Conan, o Destruidor. Assim nascem as lendas: em outubro de 1984, quando chegou aos cinemas, O Exterminador do Futuro fez coisas que no se esperavam dele  arrasou na bilheteria, revolucionou o conceito de efeitos especiais. Fez mais ainda: abriu um rasgo gigantesco na cultura pop e invadiu seu vocabulrio e seu imaginrio. No centro de tudo isso estava aquela figura macia, de andar rgido, que com seu sotaque teutnico e falta de inflexo implantou a frase Ill be back" no lxico mundial. Superastro da em diante at o fim da dcada de 90, governador (ou "governator", para rimar com "terminator") da Califrnia de 2003 a 2011, Schwarzenegger, agora com 67 anos e um pouco menos slido  mas ainda mais safo  do que em seu apogeu, prova novamente que, no papel do rob T-800, vale tudo o que pesa.  ele o eixo em torno do qual gira tudo aquilo que funciona em O Exterminador do Futuro: Gnesis (Terminator Genisys, Estados Unidos, 2015), j em cartaz no pas. 
     Gnesis sensatamente finge que o terceiro e o quarto episdios da franquia nunca existiram, e aproveita todo o possvel do primeiro e segundo Exterminador (este, talvez o filme mais espetacular da carreira de Cameron). Tanto que, de incio,  quase que uma recapitulao: em 29 de agosto de 1997, o chamado Dia do Julgamento Final, a rede de inteligncia artificial Skynet vira uma entidade autnoma, dispara o arsenal nuclear do planeta e quase dizima a humanidade. Liderados pelo insurgente John Connor (aqui, Jason Clarke), os sobreviventes travam uma guerra de resistncia que, em 2029, est a um passo de se decidir. Como ltima cartada, Connor manda seu brao-direito, Kyle Reese (Jai Courtney), de 2029 para 1984, para impedir que um exterminador mate sua me, Sarah Connor (Emilia Clarke, a Daenerys de Game of Thrones), antes que ela possa conceb-lo. Quando Reese desembarca em 1984, porm, nada se parece com aquilo que John Connor lhe relatou: algo mudou no passado ainda mais distante, e est-se agora em uma realidade alternativa. Sarah Connor no mais  uma garonete apavorada; desde que um exterminador a deixou rf, aos 9 anos, ela vem sendo protegida e treinada por um modelo T-800 (Schwarzenegger, com aspecto de quarento) ao qual chama de Papi e a quem adora como um pai verdadeiro. Pior, a chegada de Reese est sendo aguardada por um T-1000, o letal modelo de metal lquido (interpretado com preciso de bailarino pelo astro coreano Byung-hun Lee)  e a Skynet, nessa bifurcao da realidade, est preparando meios ainda mais insidiosos de controlar o planeta; l por 2017, a obsesso que ela criou na populao mundial por se conectar tornar a dominao ainda mais fcil. 
     A insero dessa nova data-chave no enredo significa que se viaja muito no tempo em Gnesis. Na maior parte das vezes, com timo proveito: no s o diretor Alan Taylor abre um cenrio e evita assim meramente retrabalhar os elementos dos dois filmes originais (embora haja "ovos de Pscoa"  vontade para os aficionados) como, na sua deliciosa verso velhusca de 2017, o outrora implacvel Papi sofre de tremores eletrnicos nas mos e de chagas no ego  "Estou velho, mas no obsoleto", insiste. Com a ltima dessas viagens, porm, a que traz um John Connor transformado em homem-mquina ao presente dos personagens, Gnesis comea a correr atrs da prpria cauda. No tropea nela e termina de p, o que  bem mais do que se pode dizer das diversas continuaes ou refeituras de Tubaro, Rambo, Alien e Robocop, as outras erupes da cultura pop desse perodo em que,  semelhana da Skynet, o blockbuster passou a dominar o mundo. Nenhuma delas, claro, tinha um carvalho assim to imperturbvel em que se amparar. 


7#5 VEJA RECOMENDA
DVD 
O CORAO NO ENVELHECE (THE CORN IS GREEN, ESTADOS UNIDOS, 1945. CLASSICLINE)
 No papel de Lilly Moffat, uma inglesa que decide abrir uma escola em um vilarejo de mineiros no Pas de Gales, Bette Davis faz amplo uso do seu dom para a independncia e a imperiosidade  mas sem jamais pisar duro ou ceder aos vcios dramticos da poca. Fingindo que no entende os cdigos sociais locais, a senhorita Moffat primeiro afronta os mandachuvas do pedao com a sua obstinao em instruir os mineiros  e depois cuida de ganh-los para sua causa, quando descobre entre seus alunos um rapaz que  um talento excepcional  espera apenas de ser lapidado. Morgan Evans (John Dall), o diamante bruto em questo, tem no entanto sentimentos ambivalentes sobre a ateno que a professora concentra nele: quer ganhar o mundo, mas reluta em perder seu lugar na nica vida que conhece. Uma moa encrenqueira e assanhada, Bessie (Joan Lorring, pesando a mo), vai jogar esse equilbrio j to frgil em tumulto. Em certos momentos, a direo de Irving Rapper (que fez um punhado de filmes com Bette Davis), ainda que sempre calorosa, revela-se indisfaravelmente datada. J a atuao de Bette, essa no tem idade.

DISCO
, DUDA BRACK (INDEPENDENTE)
 Faltava no cenrio pop nacional uma cantora da qualidade de Duda Brack. Seu canto rasgado  capaz de dar dignidade at a versos bobocas como "Nossa bossa nova virou rock'n'roll / E no h Nelson Motta nem Pasquale / Que possa dar jeito" (Lata de Tinta, cuja letra fraca  compensada pelo instrumental instigante). Duda, 21 anos, trabalhou com Guinga e Hermeto Paschoal e percorreu o circuito de bares de sua Porto Alegre natal e do Rio, onde vive desde os 18 anos. ɒ foge do esquema seguido em discos de tantas intrpretes recentes  no equilibra baladas fofas e releituras de algum compositor da moda s para agradar. O repertrio  autoral, com compositores da gerao de Duda  como Dani Black, que comps Dez Dias e faz percusso de boca em Eu Sou o Ar  ou criadores que ainda no entraram totalmente no radar das novas cantoras  caso de Celso Vifora, um dos autores de Venha, a melhor cano do lbum. A voz de Duda  amparada por arranjos tensos e repletos de rudos e efeitos. Lanado por via independente, ɒ pode ser encomendado pelo e-mail dudabrackcontato@gmail.com ou baixado de graa no site www.dudabrack.com.

LIVROS
ANTOLOGIA DA POESIA ERTICA BRASILEIRA, ORGANIZADA POR ELIANE ROBERT MORAES (ATELI EDITORIAL; 504 PGINAS; 82 REAIS)
 Mais conhecido como autor de A Escrava Isaura, Bernardo Guimares tambm escreveu versos debochados sobre o que, na linguagem clnica de hoje, se chamaria de "disfuno ertil". "Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?", pergunta o poeta a si mesmo (ou, pelo menos, a uma importante parte de si mesmo) em O Elixir do Paj, um dos poemas recolhidos nesta saborosa antologia. Professora de literatura da USP, Eliane Robert Moraes fez uma seleo ampla mas criteriosa da melhor poesia ertica do pas, dos versos meramente alusivos, como Tentaes Medievais, de Alphonsus de Guimaraens  que fala dos sobressaltos noturnos de uma monja, um "lrio do altar" , aos francamente obscenos, como O Elixir do Paj. Organizado em ordem cronolgica, o livro comea com Gregrio de Matos, no sculo XVII, e chega at poetas vivos e ativos, como Ferreira Gullar, Nelson Ascher e Carlito Azevedo. 

A ESTEPE, DE ANTON TCHEKOV (TRADUO DE RUBENS FIGUEIREDO; PENGUIN COMPANHIA; 144 PGINAS; 24,90 REAIS)
 O subttulo  "Histria de uma viagem", e  s disso que se trata: um menino russo viaja para uma cidade onde comear a estudar em uma nova escola. O trajeto atravessa uma paisagem tpica da Rssia  a estepe do ttulo, com seu horizonte ilimitado; o menino conhece camponeses, mujiques e outras figuras locais; adoece na viagem, mas sem gravidade, e  tratado por um judeu, proprietrio de uma estalagem. O enredo desta primeira narrativa longa de Anton Tchekov (1860-1904)  um dos grandes mestres do conto no sculo XIX , como se v,  bem econmico. Mas o detalhamento nas descries de pessoas e paisagens e a delicadeza da perspectiva infantil conferem a A Estepe uma beleza irretocvel. Escrita em 1888, quando o autor, que tambm era mdico, contava 28 anos, esta novela incorpora memrias de uma viagem que Tchekov de fato fez quando criana. A geografia  imprecisa  nomes de cidades no constam no texto , mas isso s faz com que a estepe descrita cresa em ressonncia simblica:  a Rssia rural e rstica que emerge com vivacidade das pginas deste clssico.

TELEVISO
O LTIMO CARA DA TERRA (THE LAST MAN ON EARTH. ESTREIA NO DOMINGO 12, S 23H15, NO FX)
 Em 2022, Phil Miller (Will Forte) dirige um trailer sem passageiros em busca de algo que desapareceu at das paisagens mais urbanizadas dos Estados Unidos: gente. De preferncia, Miller quer algum do sexo feminino. Depois de percorrer todos os estados americanos, ele volta para sua Tucson de origem com a certeza de que  o nico sobrevivente de uma pandemia. O jeito  afogar as mgoas em todos os itens de consumo que, ao contrrio dos seres humanos, ainda existem nas lojas abandonadas. Miller entope-se de lcool e brinca de destruir objetos que encontra nas prateleiras. Nada, contudo, aplaca a solido. At o dia em que, acordando de um desmaio, ele d de cara com a to procurada companhia  no bem aquela dos seus sonhos: a feiosa e irritante Carol (Kristen Schaal). Criada e protagonizada por Forte, ex-integrante do humorstico Saturday Night Live, esta comdia comea meio cerebral  o heri, a exemplo do personagem de Tom Hanks no filme Nufrago, de 2000, s conversa com objetos como bolas de vlei e tnis. Mas logo sua qualidade se revela: o nonsense como motor do riso. 


7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
3- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
5- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
6- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
7- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
8- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 
9- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO
10- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
3- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
4- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS
5- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA
6- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA 
7- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA 
8- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
9- Bom Dia, Dr. Mandela. Zelda La Grange. NOVO CONCEITO
10- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- O Poder da Ao. Paulo Vieira. GENTE
5- Ele Est no Meio de Ns. Padre Marcos Rogrio. PETRA
6- Como Chegar ao Sim com Voc Mesmo. William Ury. SEXTANTE 
7- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
8- Voc Pode Mais!  99,9% No  100%. Marcos Scaldelai. GENTE
9- Negocie Qualquer Coisa com Qualquer Pessoa. Eduardo Ferraz. GENTE 
10- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 


7#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  O ESCRITOR E A CASA
     Est fazendo setenta anos que Mrio de Andrade morreu. Na noite do domingo 25 de fevereiro de 1945, ele recebia amigos em sua casa da Rua Lopes Chaves, em So Paulo, quando a certa altura quis buscar alguma coisa no andar de cima. Subiu correndo as escadas e no desceu mais, fulminado por um ataque cardaco. Tinha 51 anos. A casa da Lopes Chaves, na confluncia dos bairros da Barra Funda e de Perdizes, ainda est l, to bem tratada que acaba de receber uma exposio com objetos, fotos e outras recordaes do morador. Mrio de Andrade teve sorte. A casa de Machado de Assis, na Rua Cosme Velho, no Rio, h muito no existe. Em seu lugar, numa construo medocre, aglomeram-se um salo de beleza, um mercado/padaria e um restaurante que, solitria reminiscncia do morador de outrora, ousa chamar-se "Assis".  
     Poucos escritores se ligaram to estreitamente, melhor at dizer visceralmente,  sua casa. Vm  memria Gilberto Freyre e sua manso no bairro de Apipucos, no Recife, e o prprio Machado, cognominado "o bruxo do Cosme Velho". No. O caso de Mrio  mais profundo. Sua casa est presente em poemas, crnicas, contos, e na infinidade de cartas que escreveu. Serve-lhe para celebrar a vida, por exemplo: "Minha casa... / Tudo caiado de novo! /  to grande a manh! /  to bom respirar! /  to gostoso gostar da vida! / A prpria dor  uma felicidade" (poema XVII do livro Losango Caqui). Em outro poema (Descobrimento, um de seus Dois Poemas Acreanos), ele parte de sua casa, seu centro, seu mundo, para lindamente reconhecer o mistrio da enormidade do Brasil: 
     Abancado  escrivaninha em So Paulo 
     Na minha casa da rua Lopes Chaves 
     De supeto senti um frime por dentro 
     Fiquei trmulo, muito comovido
     Com o livro palerma olhando pr mim. 
     No v que me lembre que l no Norte, meu Deus!, muito longe de mim 
     Na escurido ativa da noite que caiu 
     Um homem plido magro de cabelo escorrendo nos olhos, 
     Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, 
     Faz pouco se deitou, est dormindo. 
     Este homem  brasileiro que nem eu... 
     
     Mrio mudou-se em 1921, aos 28 anos, para a Lopes Chaves. Ele e a famlia: a me, uma tia, o irmo e a irm. A circunstncia de ser uma casa em que, at a morte, ele era o filho explica em parte a relao visceral  era uma casa em que podia ser criana, e da qual ia juntando memrias como s as crianas juntam. Outra explicao  que Mrio ia espalhando pela casa seus muitos livros, quadros, esculturas, discos, fotos, partituras e outros objetos, projetando nela as vrias partes em que ele prprio, o mltiplo Mrio  poeta, ficcionista, crtico literrio, musiclogo, crtico de artes plsticas, folclorista, etngrafo , se constitua. "Mrio de Andrade era sua casa e ela, extenso de seu corpo e temperamento", escreve o professor Carlos Augusto Calil, curador da exposio montada na casa. 
     Mrio de Andrade era brasileiro, paulista, paulistano e "lopeschvico", adjetivo (quase um gentlico) que ele mesmo engendrou. Uma vez disse ao amigo Paulo Duarte que as cidades que mais amava eram Belm do Par e Florena. E So Paulo? "So Paulo  outra coisa", continuou, "no  amor exatamente,  identificao absoluta, sou eu. E eu no me amo. Mas me persigo. Bonita palavra, perseguir, em tudo o que sua etimologia sugere e confessa. Eu persigo So Paulo." Entre 1938 e 1941, sem emprego em So Paulo, Mrio foi arranjar-se no Rio  e passou anos infelicssimos, bebendo muito, produzindo pouco. Sentia falta de So Paulo mas,  fcil adivinhar, mais ainda da Rua Lopes Chaves. Foi de tristeza em tristeza at que "numa noite de porre", como contou ao mesmo Paulo Duarte, "bateu com o punho na mesa do bar" e disse a si mesmo: "Vou-me embora pr So Paulo, morar na minha casa". 
     Num poema famoso, Mrio disse: "Nesta rua Lopes Chaves / Envelheo e, envergonhado / Nem sei quem foi Lopes Chaves". Vamos ajud-lo: Lopes Chaves foi... No. Todo o charme do verso est em no saber quem foi Lopes Chaves. E tambm toda a verdade, pois Lopes Chaves no  nem nunca foi Lopes Chaves. O nome Lopes Chaves conduz e conduzir sempre a Mrio de Andrade. 

